Gregos e romanos na mentalidade intelectual curitibana: usos do passado nos anos da primeira república entre os letrados e artistas.

Apesar da Semana de 1922 ter se tornado o símbolo inaugural do movimento modernista no Brasil, mentalidades relativas ao progresso e à modernização nacional já se encontravam circulando nos meios intelectuais desde pelo menos o final do século XIX; e também fora do eixo Rio-São Paulo. Dessa forma, podemos problematizar o evento de 1922 e questionar se o modernismo brasileiro realmente só surgiu após a Semana, isso é o que argumenta o crítico literário Francisco Foot Hardmann em seu texto “Antigos Modernistas” (1992). Pelas palavras do autor, conseguimos resumir bem as propostas e intenções em voga no contexto: “Entre projeções futuristas e revalorizações do passado, escritores do Brasil na passagem de século tentavam fazer o que o modernismo, depois, adotaria como programa: redescobrir o país” (HARDMAN, 1992, p. 289)

Em Curitiba, antes mesmo da virada do século, esses desejos já eram observados nos meios da elite intelectual e artística. No período, a indústria gráfica crescia significativamente, nas revistas que circulavam entre os letrados encontram-se diversos textos que refletem os discursos dos pensadores da cidade. Os escritos encontrados nessas fontes revelam a vontade de seus autores de criar uma imagem local de forte herança histórica, ao mesmo tempo que tentavam legitimar o potencial produtivo para um futuro glorioso. A belle époque transformava o cenário da cidade e os elementos da burguesia moderna cada vez mais preenchiam as artes curitibanas. Da Europa, vinha grande influência do pensamento científico e civilizatório na busca de afastar o homem do “selvagem”, destacar sua racionalidade e, principalmente, exaltar sua capacidade de domínio sobre a natureza. (BEGA, 2013)

Na outra ponta dessas filosofias, indo além do otimismo ao futuro, havia ainda a expressão de uma leitura própria de passado, ligada à uma melancolia romântica. No ideal da elite intelectual, o olhar para o passado suscitava a ideia de pertencimento a um passado glorioso que, apesar de encontrar-se agora em ruínas, foi necessário para o desenvolvimento da humanidade. Nesse sentido, a antiguidade greco-romana aparece em diversas referências das revistas curitibanas, exaltando o nome de grandes filósofos e poetas que, de alguma forma, na visão destes indivíduos, iniciaram o pensamento ocidental político, artístico e filosófico. Entre as figuras estão Homero, Virgílio, Hesíodo, Ovídio, Sócrates, Platão e outros. Na revista do Club Curitybano, em 1892, foi publicado um ensaio de F. R. de Azevedo Macedo intitulado “A Arte moderna (uma tentativa de estudo)”. No texto, dividido em três edições, o autor inicia por escrever as “bases do naturalismo”. Argumenta que “as doutrinas artisticas correspondem exactamente às doutrinas philosóficas” e, que sempre uma doutrina se encontra hegemônica e em posição de maior influência do que as outras. Azevedo Macedo as divide em três grandes correntes de pensamento até sua contemporaneidade: do passado greco-romano, o classicismo; da filosofia cristã, o romantismo; e do pensamento positivista, o naturalismo vigente em seu tempo.

Em um texto que constantemente reforça noções positivistas de lei e ordem natural dos eventos, estende tais ideais para as artes e a política, e reforça a ideia de que a ciência, por meio da experimentação, se faz capaz de determinar tais eventos “fatais” ao progresso humano. Nessa linha de raciocínio, o autor destaca que desde o princípio a arte se desenvolveu “natural”, baseando-se na imitação da natureza e que muita influência “chegou” dos hebreus, dos indianos e dos gregos, imprimindo sua perspectiva positivista, expõe:

Esse texto da revista quinzenal, publicado em 15 de fevereiro de 1892, é demonstrativo das visões de mundo que circulavam entre determinados grupos da elite curitibana, como foi o caso do Club Curitybano. Na conclusão de seu estudo, F. R. de Azevedo Macedo, “contemplando este espetaculo eterno de progredir”, afirma que “É fatal a existencia do naturalismo como escola artistica em nossos tempos !” Vimos portanto que, as referências ao passado antigo não são simples escolhas estéticas, mas fazem parte da construção do raciocínio filosófico que perpetuava nos desejos artísticos e políticos de um grupo seleto de homens na Curitiba do final do século XIX. Nesse primeiro texto, observamos a construção de um pensamento presente na cidade nos primeiros anos republicanos, na sequência iremos acompanhar outros escritos presentes nas revistas que se remetem a arte da prosa e também da poesia em referência ao passado da antiguidade ocidental.

Bibliografia

BEGA, M. T. S. Letras e política no Paraná: simbolistas e anticlericais na República Velhas. Curitiba: Editora da UFPR, 2013.

HARDMAN, F. Antigos Modernistas. In: NOVAES, A. (org.) Tempo e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, pp. 289-305.

Guilherme Bohn

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