
Como bem exemplificado nos textos anteriores os intelectuais paranaenses do final do XIX, bebiam de muitas referências da antiguidade greco-romana, as finalidades para esses usos da antiguidade eram diversos, desde valorizar a democracia republicana e idealizar uma sociedade em que as ciências, artes e educação fossem elementos fundamentais; até exprimir críticas ao cristianismo e propagar ideias anticlericais voltadas para o misticismo.
Curitiba, no contexto do final do século XIX e início do XX, ainda era uma cidade pequena e provinciana, e o acesso a leitura ficava restrito aos que podiam participar da educação formal, embora fossem poucos, havia uma expressiva circulação de revistas literárias e contavam com a participação de escritores, políticos, professores e os seus alunos.
Tendo em vista tais considerações, podemos então averiguar o papel da linguagem nas produções de jornais e revistas da época, como as línguas antigas aparecem nesses textos e com quais finalidades?
Sabemos que nesse período o ensino de latim era obrigatório para os estudantes, as letras clássicas eram imprescindíveis para aqueles que quisessem tornar-se médicos, advogados, políticos e etc. As escolas dos estados brasileiros tinham a tendência de seguir o currículo do Colégio Imperial dom Pedro II, Carlos Cunha Júnior, aponta:
“Os conhecimentos exigidos nos exames preparatórios que davam acesso às Academias Superiores eram os seguintes: Francês, Latim, Retórica, Geometria, Filosofia, Inglês, História, Aritmética, Geografia, Álgebra e Português”. (2012, pp. 03)
Dessa forma, entendemos, que embora restrito a elite, esses eram os conhecimentos que os estudantes das escolas normais adquiriram, sendo assim é possível entender como o próprio simbolismo adentra nas letras paranaenses a partir de grupos que sabiam o francês.
As referências sobre o ensino do latim são vistas em uma variedade de anúncios em jornais, que ofereciam cursos de latim ou tratavam dos currículos escolares no estado, vejamos algumas dessas passagens:
No primeiro anúncio vemos as cadeiras do instituto paranaense, no segundo o decreto do governo do Paraná em 1891, sobre o ensino secundarista; e por último um anúncio de aulas particulares de ensino preparatório, todos ofertavam a língua latina e alguns idiomas modernos.
Nas revistas voltadas a literatura, como exemplo a Fanal: órgão do novo cenáculo que circulou entre 1910 e 1913, vemos a presença das citações latinas, em textos voltados para a educação, como é o caso da coluna escrita por José Guahiba, denominada Educação e democracia, assim como em poesias publicadas que faziam referência à antiguidade ou ainda traziam o latim em sua composição.
José Amarantes Santos Sobrinho, em seu artigo denominado: O latim na literatura brasileira: enfeitar, impressionar, ridicularizar (2014). Aponta que os usos do idioma no Brasil foram diversos, mas enfatiza que os três principais domínios foram o eclesiástico, acadêmico e pragmático. Com o aporte das revistas vemos os usos pragmáticos e acadêmicos desse idioma, e podemos traçar as correlações e dissidências.
O autor aponta que no século XIX, diversos autores nacionais citavam o latim em forma de satirizar e distinguir, afinal o conhecimento do idioma era comum para a elite e não para a população em geral, assim, demonstrar que alguém sabia latim era uma forma de citação laudatória e elogiosa dessa pessoa. Em várias passagens das revistas da época vemos a expressão “perder o latim”, para exprimir o que hoje dizemos que é “falar para as paredes”. Em revistas mais satíricas vemos referências mais irônicas ao uso do latim, e nas revistas anticlericais é possível observar críticas à forma como o latim foi usado na igreja católica.
Seguem alguns exemplos:

Revista olho da rua (1908), uso da expressão “Perder o latim”.

Revista Esphynge, anticlerical de 1905.

Satira na revista Olho da Rua.
Assim o latim esteve presente de diversas maneiras na realidade curitibana; no trato com a linguagem poética, na literatura e educação, e em diversos aspectos do mundo social dos letrados. Estudar essas referências é importante para entender a formação cultural do Paraná, e até mesmo nosso próprio olhar sobre o idioma latino, que não teve seu uso restrito ao período da antiguidade, mas que foi reapropriado em diversas temporalidades e com múltiplas finalidades.
Bibliografia
CUNHA JR, Carlos Fernando Ferreira. Saberes escolares do ensino secundário brasileiro no século XIX: o caso do Imperial Collegio de Pedro Segundo. Cadernos de História da Educação, v. 11, n. 1, 2012.
SOBRINHO, José Amarante Santos. O latim na literatura brasileira: enfeitar, impressionar, ridicularizar. A Palo Seco-Escritos de Filosofia e Literatura, n. 6. 2014.
- Renata Cristina S. de Oliveira






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