Os usos do latim na educação paranaense a partir de revistas do século XIX

Desde o início do processo colonizador existia uma preocupação por parte do Estado português, promover uma educação da população, com o intuito de facilitar a dominação e expandir a fé católica. Para tanto, os jesuítas passaram a ser os responsáveis por essa tarefa, ensinando sempre o latim como uma língua culta exemplar aos povos autóctones. A partir de 1759, com as reformas no ensino, promovidas pelo Marquês de Pombal, passou-se a ter a contratação de professores não religiosos, mas, ainda assim, a instrução do grego e do latim continuou a ser exercida, já que eram vistos como essenciais para a formação do pensamento e da literatura. Depois, com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, o ensino das línguas estrangeiras passou a ser mais valorizado, fazendo com que o francês e o inglês fossem incluídos no modelo educacional vigente.

De acordo com Eduardo Budini (2022), com a Proclamação da República, em 1889, começa a ter-se uma nova noção de educação, não mais voltada para um caráter literário e clássico, mas, voltada para os ideais científicos, onde o latim aparece como alvo dos que pretendiam uma educação científica para a nação brasileira. De maneira geral, essa disputa pela educação era protagonizada pelos livres-pensadores, normalmente defensores da República e do positivismo, e pelos intelectuais católicos.

No Paraná, segundo Maria Cristina Machado e Carlos Roberto Cury (2014), a Constituição de 1892 estabelecia uma educação pública e gratuita. Quanto à obrigatoriedade e à laicidade ela não fazia referência, devido à falta de recursos do governo para promover escolas suficientes e o grande debate existente entre os intelectuais, respectivamente. Assim, os âmbitos político, educacional e cultural foram disputados pelos denominados clericais e anticlericais. Para os anticlericais, a educação deveria ser pautada em ideais da filosofia positivista, tais como, o civismo, o trabalho e a liberdade na democracia, que deveriam promover o progresso e levar a sociedade à fase positiva da humanidade, a científica. Essas ideias estão muito presentes na coluna “Sobre educação” que José Guahiba escreve na revista simbolista Fanal, como pode ser visto no trecho que segue:

Na perspectiva clerical, o principal expoente foi o padre Alberto José Gonçalves, que teve uma participação ativa na política, com a apresentação de projetos de leis educacionais, e na educação paranaense, lecionando latim e doutrinas religiosas em Colégios do estado. São atribuídos ao padre, as primeiras colunas das edições da revista Club Curitybano, de 1890, que apresentam textos abordando a educação para crianças direcionadas pelos pais, seguindo uma visão aprofundada no catolicismo. Ainda que os textos não sejam assinados, por transparecerem ideais clericais, como demonstrados na imagem a seguir, e serem redigidos até o ano de 1896, quando o clérigo deixa a revista, são referidos ao padre Alberto.

Nessa perspectiva educacional, o latim era utilizado do ponto de vista religioso, muito recorrente em termos litúrgicos.

Em 1895, em resposta aos textos clericais, surge a revista “O Cenáculo”, tendo como expoente a figura de Dario Vellozo. O poeta escreveu um texto intitulado “A Imprensa e o Clero”, onde denunciava a tentativa da Igreja de interferir na área da educação. Para ele, a instrução religiosa seria um mal para a nação, uma vez que ela contradiz o ensino cívico e não pode explicar a Ciência moderna. Em seu texto, fica evidente o ideal positivista de progresso e soberania da razão, como demonstrado abaixo:

Para os intelectuais anticlericais, os dogmas pregados pela Igreja eram incompatíveis com as verdades científicas, fazendo com que se criasse uma dicotomia de progresso e atraso. Ou seja, para eles, deveria haver a cisão entre a ciência e a religião.

Na coluna de José Guahiba, “Educação e democracia”, na revista Fanal, além de ser possível identificar as ideias positivistas, também é verificável a utilização de termos em latim por parte do autor, podendo-se inferir que o uso dos latinismos se deve ao fato de que a língua latina, de acordo com Budini (2022), era vista como uma técnica preparatória para a aquisição de conhecimento científico e também como detentora de um saber clássico e nobre.

Trechos em latim da coluna “Educação e democracia”

Assim, o latim teve seu ensino de formas variadas com o passar dos anos no contexto dos brasileiros, especialmente dos paranaenses, sendo modificado pelas correntes que defendiam seu uso para proposições mais religiosas ou científicas. Portanto, a aplicação da língua latina não fica restrita a um contexto antigo e europeu, mas circula também na contemporaneidade e no território brasileiro de múltiplas maneiras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BUDINI, E. D. O ensino de latim do Brasil após a LDB de 1961: Uma análise sobre as causas da sua exclusão e a história da opinião pública através dos jornais das décadas de 1950-1990. 105 f. Monografia de graduação (em História) – Universidade Federal da Fronteira Sul, Erechim, 2022.
CURY, C. R. J.; MACHADO, M. C. G. A educação na Constituição Republicana do Estado do Paraná (1892) e seus desdobramentos. Acta Scientiarum, Maringá, vol. 36, n. 2, jul-dez, 2014, pp. 199-209.
MULIK, K. B. O ensino de língua estrangeira no contexto brasileiro: Um passeio pela história. Crátilo, Patos de Minas, vol. 5, n. 1, mar, 2012, pp. 14-22.

  • Isabela de Oliveira Fedorovicz

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