
Continuando nosso estudo sobre os usos da lira nos periódicos de Curitiba, analisaremos a seguir a recepção desse instrumento nas revistas literárias.
Segundo Kaminski (2010), esse grupo era formado por quinze títulos de revistas que, em sua maioria, tiveram uma curta duração de um a dois anos e contavam com a participação frequente de indivíduos ligados ao meio literário de Curitiba que, desde o final do século XIX, apresentava forte influência do movimento Simbolista. Entre os nomes recorrentes estavam, por exemplo, Dario Vellozo, Silveira Neto, Emiliano Perneta, Nestor de Castro, entre muitos outros.
Nessas revistas, o uso de imagens era parco devido às limitações técnicas e econômicas da impressão de imagens na época e também devido ao seu público alvo. Destinadas aos envolvidos e simpatizantes do meio literário, elas se voltavam a um grupo restrito e não pareciam ter a intenção de expandi-lo muito, deixando de usar as imagens como meio de atração de novos leitores, como o faziam os outros tipos de periódicos, e usando-as principalmente como ornamentação (KAMINSKI, 2010).
Dessa forma, as liras eram comumente usadas como elementos decorativos, acompanhando os poemas publicados, em concordância com o padrão de uso das imagens desse grupo de revistas. As liras mantinham, então, sua associação com a música e também a poesia, já que era comum na antiguidade greco-romana a segunda ser acompanhada pela primeira. Além disso, por conta de sua ligação com a antiguidade greco-romana, a presença das liras servia para evocar um ideal de “clássico” e de certa forma associá-lo ao conteúdo que elas acompanhavam.
Assim, por exemplo, a presença das ilustrações de liras acompanhando certos poemas publicados nesses periódicos serve para evocar um ideal de poesia “clássica” e associá-lo ao poema presente na página ornamentada pela lira, e até mesmo à revista como um todo, passando com isso uma imagem de refinamento, seriedade e elevação.
Nota-se, além disso, que esse uso das liras como forma de evocar o ideal de poesia “clássica” serve também à tarefa proposta pelas revistas literárias de “difundir e preservar uma arte mais ‘elevada’ e perene, frente ao aparecimento das novas formas de entretenimento urbano consideradas efêmeras e até de mau gosto” (KAMINSKI, 2011, p. 2667).
O uso das imagens de liras nos periódicos curitibanos do final do séc. XIX e início do XX era uma prática relativamente comum. Nas revistas literárias, seu uso tinha função ornamental e servia de ligação entre o conteúdo que estavam acompanhando e a música, a poesia e um ideal de “clássico”, passando assim uma imagem de elevação e refinamento que contribuía com o objetivo dessas revistas de defender a Arte erudita contra os novos entretenimentos de caráter mais popular. A recepção desse instrumento musical não era, portanto, simplesmente estética, mas servia para evocar certas características desejadas do passado “clássico” visando objetivos da época.
Referências
KAMINSKI, Rosane. A formação de juízos de gosto: revistas ilustradas em Curitiba (1900-1920). In: 20º Encontro da Associaçao Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas: Subjetividade, utopias e fabulações., 2011, Rio de Janeiro. Anais do … Encontro Nacional da ANPAP (Cd-Rom). Rio de Janeiro: ANPAP, 2011.
KAMINSKI, Rosane. A presença das imagens nas revistas curitibanas entre 1900-1920. Revista Científica/FAP, Curitiba, v. 5, p. 149-170, 2010.
- Camila Iwahata



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