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Prosseguindo no estudo da recepção nas revistas curitibanas, hoje analisaremos brevemente a relação entre o mito de Orfeu e o processo de recepção dos clássicos na modernidade a partir da presença órfica no periódico Esphynge, publicado na virada do século XIX para o XX por um grupo de livres pensadores das instituições esotéricas do Paraná.
Esphynge: Sciencia, Arte, Mysterio foi uma revista publicada em Curitiba entre 1899 e 1906, editada pelo poeta carioca Dario Vellozo (1869-1937) e cujo foco era “Dizer o que é Sciencia Occulta, preparar o espírito de nossos Irmãos para receber a grandiosa luz do século XX – eis nosso intento” (A “Esphynge” por Dario Vellozo, ano 1, n. 1, p. 4, 1899). A tese esotérica difundida na revista era considerada compatível e apoiada às antigas filosofias espirituais (Antigos Mysterios), por isso a recepção dos mistérios da antiguidade era basilar ao projeto de resgate das chamadas ciências ocultas (Sciencia Occulta) e dos padrões estéticos clássicos (Arte). Formando, então, o tripé representado no subtítulo do periódico. Dentre os variados nomes aos quais se faz constante menção na Esphynge estão: Hermes Trismegisto, Osíris, Pitágoras (e pitagóricos), Platão (e neoplatônicos), Moisés, Buda, e, evidentemente, Orfeu. Este breve texto pretende introduzir a relação dos mitos órficos com o ocultismo moderno evocado na revista curitibana, demonstrando as recepções aos antigos gregos a partir do esoterismo das associações de iniciados.
Segundo a tradição mítica, Orfeu (Oρφεύς) seria o mais talentoso dos poetas. Ao tocar sua lira (presente do deus das artes, Apolo), todos os seres vivos se encantavam e até as plantas e pedras paravam para ouvi-lo. O jovem artista se apaixonou e casou-se com a ninfa Eurídice, mas ela morreu e foi levada ao submundo. Orfeu, com o poder encantador de sua música, teria sido capaz de descer ao reino dos mortos e de lá voltar – embora sem a companhia de sua amada. Segundo a tradição, sua viagem ao inferno lhe concedeu conhecimentos ocultos sobre o pós-morte, dando-lhe os saberes necessários para interromper o eterno círculo de reencarnações (OLIVEIRA, 2004, p. 10). Entorno da literatura atribuída a este poeta mítico, desenvolveram-se na Grécia (por volta do século VI AEC) os ritos órficos ou orfismo (Ὀρφικά), uma série de práticas místicas associadas a saberes ocultos sobre vida e morte que aparentam ter sido bastante populares na Antiguidade (cf. CARVALHO, 1990). Os mistérios, ao lado da religião cívica, constituíam a religiosidade grega e se caracterizavam pela ritualística iniciativa, misticismo, defesa de práticas virtuosas e proibição da comunicação de seus saberes aos externos (OLIVEIRA, 2004, p. 13-14). Esses preceitos da ritualística órfica (também presentes nos mistérios eleusinos) seriam recepcionados pelo esoterismo moderno a partir da máxima “Sêde virtuosos […] Sêde discretos”, como afirma Vellozo (ano 1, n. 1, p. 5, 1899).
Em outro texto, assinado por Dr. Vassal – possivelmente Pierre-Gérard Vassal (1769-1840), líder maçom francês –, os cultos órficos são evocados como precursores das ciências, a partir do método de regular a instrução à capacidade do instruendo (Instituição dos Mistérios, ano 1, ed. 6, n. 3, p. 6, 1899). Vassal expõe sua interpretação de que a partir da figura de Orfeu, junto a consciências dos mistérios egípcios, da filosofia clássica e da religiosidade cristã, permitiu a liberdade e racionalismo dos modernos. Eduard Schuré (1841-1929), filósofo esotérico francês, escreve em outro artigo que Orfeu seria o fundador da antiga religião pagã, assim como Moisés teria iniciado o monoteísmo (A Sphinx, ano 1, n. 3, ed. 6, p. 8, 1899). Constantemente Orfeu é evocado ao lado de Moisés, ambos como iniciados nos grandes mistérios e, por isso, eram considerados senhores das tradições ocultistas do mundo antigo (Grecia esoterica por Dario Vellozo, ano 2, n. 4, ed. 7, p. 3, 1900).
Assim, Orfeu é lido como aquele que institui o culto da “Belleza Divina”, sem o qual não haveriam as artes e os mistérios gregos, ambos recepcionados pelos esotéricos modernos em sua busca pela sabedoria oculta. Segundo os autores da Esphynge, o batismo das ordens iniciáticas presentes no cenário paranaense (em especial os maçons, martinistas e rosacrucianos) bebiam das fontes legadas pelas antigas tradições provenientes do Egito, Índia e Grécia, sendo Orfeu o maior representante dessa última (Do baptismo em maçonaria por Dario Vellozo, ano 3, n. 1, ed. 4, p. 52, 1901). O mítico poeta/músico e os ritos de sua ordem também foram fundamentais à formação do Instituto Neo-Pitagórico (I.N.P.), uma fraternidade curitibana centrada no estudo dos mistérios, fundada por Vellozo em 26 de novembro de 1909.
Referências:
CARVALHO, Silvia Maria (Org.). Orfeu, orfismo e viagens a mundos paralelos. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1990.
OLIVEIRA, Anselmo Carvalho de. Orfismo, uma nova dimensão do homem grego. Revista Ágora Filosófica, Recife, ano 4, n. 2, p. 7-19, 2004.
- Felipe Daniel Ruzene
IMAGENS:

Fragmento de Grecia esoterica por Dario Vellozo, ano 2, n. 4, ed. 7, p. 7, 1900.

Arte da Revista Esphynge: Sciencia, Arte, Mysterio, ano 1, n. 1, ed. 1, p. 1, jul. 1899.

Sede do Instituo Neo-Pitagórico ou Templo das Musas, Curitiba-PR. Inaugurado em 22 de setembro de 1918, sua arquitetura é mais uma recepção aos antigos.




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