“GRÉCIA ESOTÉRICA” DE DARIO VELLOZO: NA REVISTA ESPHYNGE (1900)

Olá, pessoal. Como estão?

Seguimos observando a relação entre orfismo, ocultismo e recepção dos clássicos na modernidade, a partir da presença dos mitos órficos no periódico Esphynge, publicado na virada do século XIX para o XX por um grupo de livres pensadores místicos das instituições esotéricas em Curitiba. Neste post analisaremos brevemente as referências a Orfeu no artigo Grécia Esotérica, escrito por Dario Vellozo para o sétimo número da revista, publicado em março de 1900.

Dario Vellozo (1869-1937) foi um poeta, educador e filósofo nascido no Rio de Janeiro. Mudou-se com o pai para Curitiba em 1885, aos 16 anos, onde fez parte do Movimento Simbolista no Paraná e passou a integrar círculos esotéricos. Maçom, martinista, teosofista e pitagórico, Vellozo foi um vanguardista do ocultismo no Brasil, liderando um movimento místico de larga escala no século XX – o Instituto Neo-Pitagórico. Como resultado das discussões esotéricas de diversos pensadores curitibanos nasceu a Esphynge: Sciencia, Arte, Mysterio, publicada em Curitiba sob direção de Vellozo entre 1899 e 1906. Aqui, analisaremos apenas uma de suas muitas contribuições à revista, o artigo Grécia Esotérica.

Entre as variadas referências suscitadas nos escritos de Dario Vellozo, a Antiguidade Clássica (especialmente os gregos e seus mistérios) estava entre as mais citadas. Tanto que, no contexto simbolista, Vellozo foi: “o que mais explicitamente se voltou ao passado grego na tentativa de construir espaços de convívio e traçar rumos ao Paraná do futuro” (GARRAFFONI, 2019, p. 32). Em Grécia Esotérica, o poeta/ocultista apresenta uma maneira de entender o nacionalismo e as filosofias brasileiras a partir do passado grego, mesclando o Brasil moderno com a Hélade antiga. Ainda, introduz o leitor à história dos ocultismos helênicos partindo dos mitos de Orfeu.

O texto inicia fazendo menção à grandiosidade do passado clássico, da “terra de Péricles” e sua consciência política que congrega outras formas de liberdade, coletividade e igualdade. Vellozo (1990, p. 2) contempla, no contexto dos antigos, o caráter nacional como um fruto da relação entre religiosidade e mistérios cuja “força, alma e luz” advém dos simbolismos. Haveria, portanto, uma relação entre os saberes ocultos, a consciência dos povos, os contextos políticos e práticas intelectuais – afinal, o acesso à verdade exigia, para os gregos, uma transformação do próprio sujeito e de seus modos de vida. O autor faz uso do helenismo e de seu ocultismo na busca anticlerical, sincretista e na defesa de seus ideais políticos e perspectivas literárias. Aí aparecem os mistérios órficos.

Para Vellozo, Orfeu, ao resgatar Eurídice do bolorento Hades, estava arrancando a própria Grécia da escuridão, do oculto – “arranca a alma da Grecia à noite da ignorância, às trevas da superstição, aos amplexos da morte” (VELLOZO, 1990, p. 6). Assim, o orfismo teria inaugurado não apenas os cultos a Dioniso e as festas da primavera (recriadas pelos neopitagóricos curitibanos), mas os mistérios, valores e modos de vida que Vellozo almejava resgatar dos antigos. Orfeu e seus mitos são referenciados como fundantes dos grandes mistérios, instituídos a partir do “culto da Belleza Divina” – posteriormente resgatado por Pitágoras, mas extinguido pelo clericalismo cristão (VELLOZO, 1990, p. 8-9).

“A Grecia perdera as chaves do Esoterismo: terminara o cyclo historico da Patria de Pythagoras; já não ressoava na Hellade a incomparavel lyra de Orpheo! A corrente de luz se eclipsara no Astral, indo se perpetuar no occidente da Europa, – Luz D’Alva! – para a Renascença espiritual do seculo XX” (VELLOZO, 1990, p. 9).

Os elementos do orfismo, mitologia e mundo gregos, são evocados pelo poeta para apresentar seus ideais de liberdade, humanidade e civismo que (em estreito diálogo com o ocultismo) apresentam outras formas de conceber as realidades políticas brasileiras na virada do século XX. Assim, o esoterismo é apresentado como forma de relacionar a realidade político-cultural de seu presente e as “proezas alquímicas” vislumbradas no passado helênico (BELTRAMI, 2009, p. 96). Há, portanto, um redimensionamento dos valores greco-romanos para o recém-criado estado do Paraná, apropriando-se do passado clássico e do orfismo para refletir as ciências, artes e mistérios ocultistas na realidade moderna brasileira.

Em suma, partindo do orfismo, do estudo esotérico e da filosofia helênica, Dario Vellozo congrega o passado grego à Curitiba moderna, vislumbrando outras formas políticas e sociabilidades possíveis à realidade brasileira da Primeira República. Seu texto Grécia Esotérica é um espaço de discussão sobre a história do esoterismo/mistérios na Antiga Grécia e novas abordagens para a relação entre antiguidade e modernidade a partir do ocultismo e dos mitos de Orfeu.

  • Felipe Daniel Ruzene

Referências

BELTRAMI, Ariete Nasulicz. Proezas Alquímicas: a ciência e o esoterismo de Dario Vellozo na terra das araucárias (Curitiba: 1890 – 1913). Orientadora: Tereza Cristina Kirschner. 2009. 203 p. Dissertação (Mestrado em História Cultural) – Departamento de História da Universidade de Brasília, Brasília, 2009.

GARRAFFONI, Renata Senna. Passado, Presente e experiências: reflexões sobre a recepção dos antigos gregos em Curitiba na virada do século XX. Rónai: Revista De Estudos Clássicos e Tradutórios, Juiz de Fora, v. 7, n. 1, p. 27-40, 2019.

VELLOZO, Dario. Grecia Esoterica. Esphynge: Sciencia, Arte, Mysterio, Curitiba, ano 2, n. 7, 1 mar. 1900. Parte Iniciática, p. 1-9. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=372811&pesq=&pagfis=107.

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