HOMERO ENTRE NÓS: BENTO CEGO NAS REVISTAS SIMBOLISTAS CURITIBANAS

Como indicamos em posts anteriores, em meio à investigação nos periódicos simbolistas paranaenses em busca da recepção greco-romana, nos deparamos com um personagem singular que recebeu especial atenção de Nestor de Castro, e a quem foi dedicado passagens nas revistas simbolistas A Penna e Pallium: revista de arte. É justamente em uma edição de 1897 de A Penna que encontramos a primeira menção a Bento Cego, violeiro errante e vate antoninense nascido em 1821, cuja vida é celebrada no texto “A Musa”, extrato retirado do Diário Paranaense. Neste, o violeiro paranaense, que carregava uma viola ao invés da lira, é comparado a Homero, ambos cantores cegos que viviam de vila em vila, e até mesmo suas feições se equiparavam ao do poeta grego.

(Extrato de A Penna, 1897)

Sua próxima aparição é na primeira edição da Pallium: revista de arte (1900), com texto de Nestor de Castro do que seria uma versão modificada da parte final de sua obra sobre o violeiro paranaense que viria a ser publicado em 1902.

(Extrato de Pallium, 1900)

As comparações com o poeta grego o renderam à denominação de Homero Paranaense, e, como bem explicita Bárbara Fonseca, o personagem também foi reivindicado pelo Movimento Paranista em uma articulação que visava a legitimação da identidade paranaense, recém criada província e que, portanto, necessitava da criação de uma tradição própria, com seus próprios sujeitos ilustres. De acordo com Maria Tarcísio Bega, se ao Paraná carecia de um passado local glorioso com heróis paranaenses, isto viabilizava a vinculação com um panorama maior da cultura ocidental. Ainda que sua memória tenha sido recuperada mais avidamente nas páginas da paranista Revista Ilustração Paranaense ao fim da década de 1920, em geral trechos de Bento Cego (1902) de Nestor de Castro, como exemplificado por A Penna e Pallium, podemos ver que este movimento de exaltação da identidade regional com a figura de Bento Cego já havia sido iniciado ao fim do século XIX.

Assim, podemos entender que a associação do violeiro paranaense com Homero teve caráter de valorização da tradição regional, com a exaltação de uma figura do círculo popular, mas também continha certo grau de sofisticação ao ser colocado como contraparte de Homero. Portanto, mesmo que a personalidade paranaense ainda estivesse sendo delineada, o movimento simbolista não demorou a posicioná-la à altura da tradição reivindicada como a fundadora da civilização ocidental.

  • Luana Treska

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