UM HOMERO LONGE DA GRÉCIA, E ALÉM DO PARANÁ: BENTO CEGO NAS REVISTAS SIMBOLISTAS CURITIBANAS

Em nosso post anterior sobre Bento Cego, apontamos que o Homero Paranaense foi tomado como símbolo regional tanto por simbolistas quanto pelo Movimento Paranista posterior, entretanto, não é apenas a nível local o violeiro cego torna-se figura conhecida, tendo percorrido outros estados em sua vida itinerária. De acordo com a biografia de autoria de Nestor de Castro, Bento Cego (1902), ainda jovem o vate demonstrou afinidade musical, tendo participado de sua primeira porfia na festa de Santo Antônio, celebrada no quarteirão do Registro, Antonina, sua terra natal, onde, de acordo com Ermelino de Leão, escrevendo “O Homero Paranaense” para a quinta edição da Revista Illustração Paranaense de 1929, simbolicamente disputou os louros, que na realidade seria um ramo de alecrim. Vitorioso, decide sair de casa, vagando por Antonina.

Se diferentemente de Homero o vate paranaense portava uma viola ao invés da lira, Bento Cego se tornou “verdadeiro ídolo das massas”, nas palavras de Nestor de Castro, e como o poeta grego vagou para diferentes cidades, participando de “torneio de Musas” no Paraná, Santa Catarina, e Rio Grande do Sul, onde se fixou por longos anos no Morro do Castelhano, levando uma vida doméstica com uma mulher chamada Catarina. Após a morte de sua amada, e para o desgosto de seus admiradores gaúchos, desejou retornar para Antonina, mas terminou por seguir para Minas Gerais e São Paulo, onde, por fim, morre cantando.

(Trecho de A Penna, 1897)

Com o violeiro sendo conhecido e aclamado por diferentes estados, algo que é afirmado em A Penna e retomado posteriormente por Nestor de Castro, é a caracterização de Bento Cego como o espírito nacional. O violeiro seria manifestação de “nossa raça” brasileira, e apontado pela revista como “elemento aproveitável para o estudo da nossa alma nacional”.

(Trecho de A Penna, 1897)

Desta forma, para os simbolistas, o Homero paranaense extrapola os limites de seu estado natal, o vinculado à tradição popular nacional, como manifestação do espírito brasileiro por meio de sua música. Este aspecto é particularmente ressaltado na obra de Nestor de Castro, no qual o autor é ferrenho em expressar seu desgosto pela importação da cultura estrangeira quando há no Brasil talentosos músicos nativos como Bento Cego. Na obra, isto é especialmente enfatizado na descrição da porfia de Bento com trovadores portugueses, que desaprova a empolgação do público com a apresentação dos estrangeiros e a indiferença de seus compatriotas quanto às cantigas nacionais. Tanto no início quanto no fim do livro, Nestor de Castro ressalta que a poesia popular ou musa popular, expressa o valor de um país, tradições subestimadas que em tempos antigos seriam melhor apreciadas por seu valor. Desta forma, percebe-se que tanto para os simbolistas quanto para Nestor de Castro, Bento Cego não apenas é assimilado a Homero por conta de sua aparente semelhança física e modos de vida, mas também ao ser reivindicado como símbolo das tradições de um povo. Logo, podemos considerar que Bento Cego também é apreciado como a contribuição do Paraná para a formação do espírito cultural nacional.

Referências:

CASTRO, Nestor de. Bento Cego. In: CASTRO, Nestor de. Obras: bento cego; perfis femininos; brindes. Curitiba: Renascimento do Paraná, 1900. p. 28-80

  • Luana Treska

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