Olá, pessoal! Esperamos que todos estejam bem!
Hoje encerraremos a nossa pesquisa temática periódica atual, no qual temos nos dedicado à recepção greco-romana nos periódicos curitibanos do início de fins do século XIX e início do XX. Com isso, no texto de hoje propomos retomar alguns pontos abordados nas publicações temáticas dos últimos meses.
Vimos que antes da virada do século, antes mesmo do impulso dado pelo modernismo da semana de 1922, intelectuais e artistas paranaenses já cultuavam ideias positivistas que apontavam para o progresso a partir dos antigos gregos e romanos, em um discurso que buscava alinhar a estética com aspirações políticas desenvolvimentistas e civilizatórias. Assim, estes paranaenses se inspiravam e, de certa forma, se colocavam à altura dos antigos, por meio das artes, valores, e educação, manifestados nos periódicos curitibanos de caráter simbolista.
Desenvolvido em um ambiente de cultura letrada restrita à elite, as inspirações da antiguidade se estenderam para o uso do latim nas produções dos jornais e revistas, com citações, uso educacional, e até mesmo de modo satírico. O latim também esteve incluso nas disputas entre clericais e anticlericais no contexto educacional, com o idioma antigo sendo utilizado tanto na educação religiosa e cerimônias, quanto no cientificismo positivista.
Outro elemento resgatado da cultura clássica foi a lira. Presente nas revistas literárias, não apenas à título de embelezamento ornamentou poesias, visto sua imagem alusiva à antiguidade greco-romana, evocando um ideal ‘clássico’ e trazendo seriedade, elevação e refinamento para o conteúdo que o acompanhava. Da mesma forma, ornamentou anúncios de comércios de instrumentos musicais presentes nos periódicos, fortalecendo a associação do estabelecimento com a austeridade da cultura clássica.
E falando em música, não pudemos deixar de notar a presença de Orfeu no periódico Esphynge. Como vimos, os intelectuais e artistas envolvidos nas publicações receberam forte influência do movimento simbolista, manifestamente anticlerical. Assim, compreendemos as referências ocultistas, nomeadamente figuras antigas, com o orfismo, envolto em saberes esotéricos e artes, ocupando lugar nos ideais de liberdade, sabedoria e ciência almejados por figuras como Dario Vellozo.
E, por fim, também nos defrontamos com a exaltação de um personagem regional associado com o maior dos poetas gregos. Celebrado pelos paranistas, a memória do vate paranaense Bento Cego, é resgatada pelos periódicos simbolistas já em fins do século XIX, quando intitulado como o Homero Paranaense. O violeiro cego de Antonina é articulado à criação e legitimação das tradições paranaenses, em um movimento de vinculação entre a cultura popular local e o panorama maior da cultura ocidental, a contribuição do Paraná ao espírito nacional. Tem sua biografia escrita por Nestor de Castro, e seu busto encomendado à João Turin para decoração do Palácio do Governo em 1929, ilustrando a proeminência do vate cego.
Com isso, em nossa passagem por alguns dos periódicos curitibanos de fins do século XIX e início do XX, podemos concluir que a recepção da antiguidade clássica no ambiente intelectual e artístico curitibano, particularmente de caráter simbolista, não foi superficial, mas com os elementos clássicos, personagens singulares, artes, valores e saberes dos antigos iluminando os ideais daqueles que envisionavam novas possibilidades políticas e de sociabilidades no Paraná da Primeira República. Também evidencia que o movimento simbolista paranaense não estava alheio ao cenário político, empenhados em dignificar a identidade paranaense como herdeira de uma tradição mais antiga, e alavancar o Paraná junto das regiões mais antigas e influentes da nação.
- Luana Treska




Deixe um comentário