Les beautés du Parthénon, les Vénus, les Nymphes, les Narcisses, sont autant de mensonges (PICASSO apud RICHARDSON, 2021, p. 33).

Pablo Picasso figurou-se tema recente e constante em diversos debates artísticos e museológicos por diversas questões: de suas inovações vanguardistas às polêmicas posições frente a temáticas de gênero. Não obstante, essa constante de aparições do artista não vem afastada do mundo antigo, exponenciada nos últimos anos.
Caso da recente exposição, realizada de 5 de abril a 2 de outubro de 2023, no Museu Arqueológico de Napoli (Museo Archeologico Nazionale di Napoli – MANN), Picasso e l’antico. No entremeio das escolhas da curadoria, fizeram-se presentes obras interconectadas com a visita do pintor e escultor às instalações do museu, ocorrida em 1917, como uma referência direta aos 50 anos da morte do artista. Saltam-se aos olhos: Picasso elaborou número suficiente de criações inspiradas no passado romano e grego para se conseguir criar uma exposição completa com a temática.

No entanto, uma visita aos Museo Casa Natal de Picasso e Museo Picasso, em Málaga, mostram como isso pode ser mais aparente do que se imagina. Uma grande extensão daquilo exposto em suas paredes, de autoria do artista malagueño, remete às artes greco-romanas, direta ou indiretamente: de desenhos a grupos escultóricos mitológicos a topoi imagéticos antigos ressoam entre suas coleções.


Motivos imagéticos capazes de chamarem a atenção pela simples primeira impressão de contraste entre o “novo” e o “antigo”, a “vanguarda progressista” e o “tradicionalismo clássico”. Uma percepção, contudo, pouco aprofundada acerca da complexidade das (re)apropriações do artista perante as artes gregas e romanas antigas. Afinal, conforme já estudado por Florman (2000) – que, junto a outros autores, faz parte de um grupo de investigadores dedicados ao tema da presença dos “clássicos” na obra de Picasso -, há manutenção duradoura das reflexões ideológicas, estilísticas, de forma e de composição das contestações cubistas. Antes de tudo, um confronto das pretensas “unidade” e “atemporalidade” desse “classicismo”.
Foram essas questões norteadoras da escolha no nosso próximo tema de pesquisa coletiva deste semestre. A partir deste post, temos como objetivo analisar a Recepção do Mediterrâneo antigo na extensa obra de Picasso, recortada a partir do achado de múltiplas referências entre as criações dos idos de 1930 e 1940. É uma fase, segundo Richardson (2021), em que o desenhista não se limita a inspirações literárias, mas sim expande-se em direção ao choque com esculturas vistas no museu napolitano e com sua consciência acerca do passado antigo do mundo mediterrânico ao qual pertencia.
Daí que apareçam impressões, especialmente em suas paletas da coleção Vollard Suite (experimental em suas técnicas), onde a sua figuração enquanto artista – ou, mais bem dito, escultor da Antiguidade, tal qual debate Florman (2000) – lhe figuram uma aura doméstica idílica, bem como amorosa, erótica e divina de sua musa (RICHARDSON, 2021). Ao mesmo tempo, Richardson (2021) nos situa diante de seu Minotauro surrealista e contestador, conotação concentrada em seu irracionalismo e dramatismo perante Teseu racional.

É, nos termos de Florman (2000), um trabalho de Aracne, um conglomerado de imagens interconectadas por infinitos paralelos e associações não lógicas ou lineares. Um trabalho com a tradição, algo que não significa a Picasso o seu reforço; do contrário, seria a oportunidade de dar novas significações para ela.
Deste conjunto difuso, experimental, vanguardista e de inovações, subtraímos temáticas para as análises que constituirão os textos deste bloco de textos. Para começar, as próximas publicações serão direcionadas, desde a ótica dionisíaca de suas produções, para ponderações acerca de perspectivas de gênero. Em um segundo momento, a pesquisa se voltará para as figuras mitológicas. Por fim, sua recepção no país, com destaque para Curitiba, será o centro da discussão.
Esperamos, assim, buscar ferramentas para entender como um dos artistas de vanguarda mais conhecidos, entre América e Europa, construiu, reconstruiu e segue reformulando ideias e percepções acerca de gregos e romanos. Ecoados, não muito distante de nós, nas galerias de arte de Curitiba dos fins do século XX.
REFERÊNCIAS
FLORMAN, Lisa. Myth and Metamorphosis: Picasso’s Classical Prints of the 1930s. Massachusetts Institute of Technology, 2000.
MUSEO ARCHEOLOGICO DI NAPOLI. Picasso e l’antico. Disponível em: <https://mann-napoli.it/picasso-e-antico/>. Acesso em: 03 maio 2024.
RICHARDSON, John. A Life of Picasso: The Minotaur Years (1933-1943). New York: Alfred A. Knopf, 2021.
Links de interesse:
COLEÇÃO VOLLARD SUITE: https://museum.colby.edu/collection/picassos-vollard-suite/
MUSEO PICASSO MÁLAGA: https://www.museopicassomalaga.org/
MUSEO CASA NATAL DE PICASSO: https://museocasanatalpicasso.malaga.eu/
- Heloisa Motelewski



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