
A simultaneidade entre o florescer das vanguardas, a psicanálise e do pensamento nietzschiano servirá para nós, no post de hoje, como um caminho para entender a representação báquica e feminina na obra de Pablo Picasso. Este texto terá como foco a construção de imagens dos rituais dionisíacos e de mulheres em suas litografias, amalgamando a relação entre essas diferentes discussões que tomaram o cenário do início do século XX.
Os desenhos do artista malagueño em questão foram produzidos entre as décadas de 1930 e de 1960, momento em que não mais assumia-se sua obra como simplesmente cubista, mas se encontravam flertes seus para com outros movimentos artísticos vanguardistas – caso, pois, do próprio Surrealismo (RICHARDSON, 2021). Nesse sentido, não é de se estranhar que Lisboa (2019) opte por partir de uma perspectiva psicanalítica para analisar a figuração feminina na produção do espanhol. Afinal, os surrealistas pressupunham a incorporação de temas oníricos, conscientes e subconscientes, advindos das recentes teorias de Sigmund Freud, assimilado como um “patrono” de seu grupo de artistas. Dessa maneira, podemos encontrar uma linha pela qual Picasso recepcionou a teoria psicanalítica em suas obras, ainda que de forma indiretamente impactante em suas criações femininas.
Este seria o caso das mulheres alinhadas aos cultos báquicos, as bacantes, de suas litografias. Observamos como essa criação mantém-se associada com o preceito dionisíaco (descrito primordialmente por Nietzsche em A Origem da Tragédia) das artes de vanguarda. Referenciador de As Bacantes, de Eurípides, esse conceito norteador delimita-se, conforme as definições de Gonzalez (2011) sobre seus impactos ao vanguardismo, em um dionisismo de constante insubordinação e de renovação, ao mesmo tempo refutando e assimilando o antigo neste processo incessante. É, pois, o interesse de Picasso sobre a Antiguidade (ver também BLÁZQUEZ-MARTÍNEZ, 1971, em cujo texto cita uma extensa referência do artista ao mundo antigo) desde a visão revoltosa e renovadora da religião dedicada a Baco.
Essa aura transparece, por exemplo, na criação intitulada Homenaje a Baco (1960). Em seus traços, a festividade acompanha a figura feminina à esquerda, misturada nas entrelinhas de aspectos maternais – a mulher mãe, cuja interpretação psicanalítica sob Picasso encarna a resignação da falta fálica em sua maternidade (LISBOA, 2019). Respalda-se, em grande medida, na própria narrativa sobre a criação da divindade romana: Baco perde sua mãe para os ciúmes de Juno, sendo educado posteriormente por outras mulheres que assumem esse papel maternal.
Tendo isso em vista, encontramos a repercussão da dualidade que pauta a figura feminina na obra de Picasso desde uma possível interpretação psicanalítica que este fazia delas: ora a mãe que encontrava nesta função a sua submissão à ausência fálica; ora a mulher outra. Esta é visualizada em Centauro y Bacante con Fauno (1947) e Bacchic Scene with Minotaur (1933). Desconhecida, vazia, é ela pelo pintor objetificada sob a musa, sob a bacante. Uma visão, pois, que deve ser revista e criticamente pensada na atualidade, haja vista as problematizações que carrega em si.



Homenaje a Baco (à esquerda).
Pablo Picasso. 1960. Litografía sobre papel (50 x 65 cm).
Coleção da Fundación Pablo Ruiz Picasso. Disponível em: <https://museocasanatalpicasso.malaga.eu/la-coleccion/catalogo/detalle-de-la-obra/index.html?id=316>. Acesso em: 14 maio 2024.
Centauro y Bacante con Fauno (superior direita).
Pablo Picasso. 1947. Litografía sobre papel (50 x 65 cm).
Coleção da Fundación Pablo Ruiz Picasso. Disponível em: <https://museocasanatalpicasso.malaga.eu/la-coleccion/catalogo/detalle-de-la-obra/index.html?id=182>. Acesso em: 14 maio 2024.
Bacchic Scene with Minotaur (inferior direita).
Pablo Picasso. 1933. Gravura (38,7 x 48,9 cm).
Coleção The Lunder Collection. Disponível em: <https://museum.colby.edu/?s=&mode=single&sel=1&sort=Disp_Title.sort&o=asc&from=0&size=24>. Acesso em: 14 maio 2024.
REFERÊNCIAS
BLÁZQUEZ-MARTÍNEZ, José María. El mundo clásico en Picasso. Antigua: Historia y Arqueología de las civilizaciones. 1971.
GONZALEZ, Suillan Miguez. A matriz dionisíaca e febril dos modernismos português e brasileiro. Kalíope, São Paulo, v. 7, n. 13, p. 112-138, jan./jul. 2011.
LISBOA, Alice Vilhena. O Feminino em Pablo Picasso. Psicanálise & Barroco em Revista, v. 2, n. 1, p. 18-25, 2019.
RICHARDSON, John. A Life of Picasso: The Minotaur Years (1933-1943). New York: Alfred A. Knopf, 2021.
- Heloisa Motelewski



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