
O texto dessa semana irá explorar a gravura “As filhas de Mínias” do pintor Pablo Picasso. Ela permite compreender melhor a relação entre o clássico e o classicismo, e fazendo uma ponte com o texto da semana passada, pensar gênero e psicanálise. A gravura em questão encontra-se na edição das Metamorfoses de Ovídeo publicada por Skira em 1931, com tradução francesa de Georges Lafave de 1928 e ilustrações do pintor malaguenho executadas entre 18 de setembro e 20 de outubro de 1930.
As ilustrações de Metamorfoses carregam um estilo com linhas fluidas e contornos suaves, sem cor, luz ou sombra, baseado unicamente no modelo com a linha. A historiadora da arte Lisa Florman aproxima esse estilo aos das gravuras nos vasos gregos, e em especial, aos espelhos etruscos – veremos que essa aproximação transborda o estilo e propõe um novo campo de possibilidade no terreno das interpretações.
A historiadora explica que o estatuto de “clássico” da arte etrusca é questionável e ecoam a divisão dionisíaca e apolínea de Nietszche, mostrando que esse caráter dual é devido aos elementos indígenas de um lado e empréstimos helênicos de outro – portanto, a arte seria clássica e não clássica. Também aponta que mesmo a obra de Ovídeo pode ser considerada “anticlássica” por muitas de suas histórias orbitarem sentimentos “não clássicos”. Nas gravuras, Florman mostra que Picasso carrega essa dualidade quando subverte tanto a lógica do desenho, em que explora a ambiguidade para animar as figuras, quanto a da retomada dos antigos e da mitologia antiga num pós-guerra em que esse processo tinha um fim no classicismo.
O filósofo Carlos Alcalde explica que um dos mitos que introduziram os cultos a Baco na Grécia é o das três filhas de Mínias. Elas se negaram a participar dos ritos e, enquanto as bacantes saíram para homenagear o deus, ficaram em casa fiando lã e contando histórias míticas. Ovídeo as castiga transformando-as em morcegos. Tal história é retratada pela gravura “As filhas de Mínias” e reúne dois aspectos importantes.
O primeiro alinha-se à interpretação da historiadora da arte. O movimento das bacantes produzido pela ambiguidade dos traços, a quase indiferenciação entre os corpos e a impossibilidade mesmo de quantificar quantas são representariam, segundo Alcalde Martín, a metamorfose da figura. Assim representam o clássico, mas não de forma classicista.
O segundo aspecto alinha-se à uma ótica de interpretação psicanalítica em que o texto publicado no blog na semana passada discorre bem. Alcalde Martín esclarece que as ilustrações das Metamorfoses têm sido relacionadas com experiências pessoais de Picasso, e revela que nelas podem ser encontrados elementos significativos tanto do ponto de vista de sua biografia quanto de seu imaginário artístico, já que, como o filósofo explica, Picasso escolhe episódios específicos, especialmente significativos para ele, que se conectam com seus interesses pessoais e com sua vida. Nesse sentido, a psicóloga Aline Lisboa sugere que podemos pensar, a partir da posição subjetiva do artista, o que é ‘a’ mulher de Picasso, apontando as distorções que o autor faz do corpo feminino como um caminho para interpretação. Talvez esse seja o caso aqui.
Podemos pensar que tanto o contraste entre as três filhas de Mínias, retratadas com os cabos presos, vestidas e com contornos bem definidos e as bacantes distorcidas à janela; quanto as bacantes e as filhas por si mesmas. Visto isso, é possível perceber a disputa de significados interna à obra de Picasso, por hora vanguarda e disruptivo, por vezes não. Cabe continuarmos com as análises e, nas próximas semanas, acompanhando os próximos textos do blog.

REFERÊNCIAS
ALCALDE MARTÍN, Carlos. Omnia mutantur: Metamorfosis, de Ovidio a Picasso. Humanitas, Coimbra, v. 65, p. 285-303, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.14195/2183-1718_65_15. Acesso em: 19/05/2024.
LISBOA, Alice Vilhena. O Feminino em Pablo Picasso. Psicanálise & Barroco em Revista, v. 2, n. 1, p. 18-25, 2019.
FLORMAN, Lisa Carol. Myth and metamorphosis: Picasso’s classical prints of the 1930. Massachusetts: MIT Press, 2000.
- Fábio Vinicyus Gessinger



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