Os gregos no cubismo: Picasso ilustra a Lisístrata de Aristófanes

Olá pessoal, no texto de hoje trataremos sobre como a comédia grega Lisístrata foi retratada pelo artista Pablo Picasso, dando continuidade aos textos anteriores nos quais já analisamos a relação do pintor malagueño com a Antiguidade nas representações das bacantes e das Metamorfoses de Ovídeo.

Antes de abordarmos a recepção de Picasso, é crucial discorrer sobre a comédia grega de Aristófanes. Ela foi produzida no século V a.C. durante o período da guerra do Peloponeso entre as pólis gregas de Esparta e Atenas. O comediógrafo ateniense é conhecido por abordar temas políticos e questões de gênero não apenas na obra em questão, mas também em outras, como Tesmoforiantes e A Assembleia de Mulheres. A história de Lisístrata retrata um cenário utópico no qual as mulheres de Atenas e Esparta decidem assumir o controle da política e realizar uma greve de sexo para pôr fim à guerra que se arrastava há mais de uma década entre as cidades.

A obra de Aristófanes tem sido reinterpretada ao longo de muitos séculos desde a sua criação. Sua recepção é, portanto, multifacetada: já foi vista como um apelo pacifista, mas também foi adaptada nos palcos como uma representação de conteúdo adulto. Além disso, tem sido explorada como ponto de partida para discutir a sexualidade feminina e suas reivindicações políticas, como aponta James Robson (2016).

Picasso ilustrou a versão da Lisístrata publicada em 1934, em uma edição especial do The Limited Editions Club, em Nova York. A década de trinta também foi marcada por sua série de ilustrações das Metamorfoses de Ovídio (1931), pela coleção Vollard Suite (1930-1934) e pelo quadro Minotauromaquia (1935). Assim, muitas das referências ao mundo antigo na obra do cubista se concentram nesse período. Em textos anteriores, destacamos a influência surrealista e psicanalítica dessa fase do pintor; portanto, essas relações não serão aprofundadas aqui, apenas tangenciadas. Silva (2017), ao tratar da ideia freudiana de pulsão de vida nas obras de Picasso, demonstra que, nesse período, o artista vivenciou um caso com a modelo adolescente de dezessete anos, Marie-Thérèse Walter, com quem teve uma filha. Citando Silva (2017):

“É nas pinturas feitas a partir dessa época que se pode identificar com mais clareza o desejo de Picasso pela liberdade, não apenas na pintura, mas em toda sua própria existência. A manifestação da pulsão de vida em suas obras aqui se revela, por exemplo, pelo fato das mesmas, se apresentarem de um modo que poderíamos dizer inacabadas, com um grau de abstração tal que permite ao observador completá-la com suas próprias fantasias.” (Silva, 2017,p.119)

Sendo assim, para compreender a série de seis gravuras e trinta e três ilustrações feitas por Picasso para Lisístrata, começaremos com a ideia de liberdade e desejo, direcionando o olhar para um tipo de recepção da peça de Aristófanes marcada pela espetacularização da sexualidade feminina. Robson aponta que esse tipo de adaptação da peça grega começou a ganhar destaque por volta do século XIX em Paris e continuou ao longo do século XX, culminando em uma versão que se tornou um musical de sucesso na Broadway em 1930. Essa versão americana é resultado de uma produção russa de 1923, traduzida e adaptada por Gilbert Seldes, que incorporou elementos do burlesco, da dança e da música para a Broadway.

Miriam Hopkins in “Lysistrata”

Fotógrafo: Edward Steichen

Work: In Copyright | © The Estate of Edward Steichen / Adagp, Paris, 2024Image(s): In Copyright | Reproduction: MNAHA / Tom LucasMetadata: CC0 1.0 Universal (CC0 1.0)

Robson enfatiza que a versão de Seldes retrata as mulheres jovens como frívolas, enquanto as mais velhas são retratadas como aquelas que buscam mudanças políticas e soluções para os problemas, diferenciando-se do original de Aristófanes. Além disso, a peça americana enfatiza temas como adultério, e no palco, as atrizes usavam vestimentas transparentes para acentuar o apelo sexual, principalmente ao público masculino. A recepção do público foi dividida em relação à peça de Seldes, chegando até mesmo a ser alvo de censura em algumas apresentações. No entanto, em 1934, a versão de Gilbert ganha uma adaptação em livro com ilustrações de Picasso, consolidando ainda mais o sucesso da peça.

Dessa forma, podemos compreender como as ilustrações de Picasso para Lisístrata se relacionam com uma fase de sua vida marcada pelas influências do mundo antigo, que se alinham com questões do desejo pela liberdade a partir da psicanálise, com a ideia de pulsão de vida refletida na representação das figuras femininas e pelo aspecto de estarem inacabadas. No entanto, essa interpretação da peça de Aristófanes também nos leva a questionar a relação do pintor com as mulheres, a qual é passível de crítica, principalmente pelo envolvimento do pintor com uma menor de idade, e também por como as mulheres, principalmente as jovens, foram representadas na versão de Seldes.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Pablo Picasso

Kinesias and Myrrhina (Cinésias et Myrrhine) from Lysistrata 1934

Copyright© 2024 Estate of Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), New York

Pablo Picasso

The Feast (Le Banquet) from Lysistrata 1934.

Copyright© 2024 Estate of Pablo Picasso / Artists Rights Society (ARS), New York

REFERÊNCIAS

POMPEU, Ana Maria César et al. As Mulheres de Aristófanes: revolução e recepção (tomo 1). Pimenta Cultural, 2022.

ROBSON, James. Aristophanes, Gender, and Sexuality. In: Brill’s Companion to the Reception of Aristophanes. Brill, 2016. p. 44-66.

SILVA, André Luiz Picolli da. Eros, arte e desejo: compreensões sobre a obra de Pablo Picasso. 2017. viii, 203 f., il. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica e Cultura) – Universidade de Brasília, Brasília, 2017.

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