Mulheres mitológicas em Picasso: questões de gênero na figura de Vênus

Conforme explicitado no texto anterior, as representações femininas em Picasso apresentam um viés de deformação dos corpos, beirando a desumanização. Assim, as imagens da deusa do amor na obra do artista rompem com o padrão de beleza greco-romano, constituindo o ser em uma espécie de forma pura do desenho, com elementos brutos e que fogem da harmonia clássica. É dessa forma que Picasso traz um ar de instabilidade às imagens de Vênus: por meio de um corpo fragmentado, “montado” ao redor da composição.

A obra de Picasso se torna símbolo de uma arte engajada, cheia de questionamentos e revolucionária. Contudo, se o espanhol rompe com certas questões, ainda há outras que são inexploradas por ele. Entre elas, podemos citar o rompimento com as representações tradicionais da mulher, que são visíveis em suas Vênus. Apesar de se livrar dos ideais clássicos para a concepção do corpo feminino da deusa, pautados na harmonia, quando utiliza o desencontro dos membros desta, Picasso a retrata com ar de brutalização, colocando-a em um lugar de objeto. O corpo de Vênus, assim como de outras mulheres em sua produção, é algo para ser desmontado e reorganizado, dissecado e transformado sob o olhar e a vontade masculinos.

Aqui, observamos nas figuras venusianas do artista a propagação do que foi colocado por Loponte (2002) como uma “pedagogia visual que naturaliza e legitima o corpo feminino como objeto de contemplação” (p. 284). Embora a Vênus de Picasso já não esteja escondida debaixo de um véu de erotismo, ela ainda não possui lugar de ação significativo nos retratos, mesmo que seja parte central da composição. Seu corpo é meramente alvo de consideração, tendo sido anteriormente manipulado e desmembrado até um estado de monstruosidade pelo pintor.

Então, é possível também citar certo incômodo com a brutalização da deusa nas imagens de Picasso, principalmente no modo com o qual seu corpo é montado e desmontado até a impossibilidade de reconhecimento para a contemplação masculina. Como explicado por Martín (2003), ao refletir sobre a construção visual das mulheres nas produções vanguardistas,

Apesar das transgressões, “Vênus” continua aparecendo como uma construção masculina. Uma construção que também tem uma longa história que remete a estéticas e ideologias da virada de século e que responde frequentemente a um mal-estar cultural muito definido. (p. 446)

Picasso não retira o corpo de Vênus do âmbito de objeto: se outros artistas a objetificaram utilizando a erotização como ferramenta, o espanhol o faz por meio do desmantelamento de suas formas, transformando-a em nada além de uma gravura grotesca para ser vista e, essencialmente, controlada pelos homens. Em suma, apesar de toda a abundância de renovações empreendida por artistas como Picasso em direção às mudanças culturais na luta pelas percepções na arte, ainda existiram demandas que sua obra falhou em executar.

Figura 01 – Venus y el Amor (según Cranach) (Primera variación)

Fonte: Museo Casa Natal Picasso, Málaga

Figura 02 – Circus Scene with Venus and the golden apple, and a Cupid

Fonte: Fundación Museu Picasso de Barcelona, Barcelona

Figura 03 – Divertimento on a Series of Famous Paintings by Titian: Venus with a Musician and a Cupid

Fonte: Fundación Museu Picasso de Barcelona, Barcelona

FONTES:
PICASSO, P. Circus Scene with Venus and the Golden Apple, and a Cupid. Mougins, 1966. Gravura em cobre; impresso em papel vitela Romaní. Disponível em: https://museupicassobcn.cat/index.php/en/node/781. Acesso em: 4 jun. 2024.


PICASSO, P. Divertimento on a Series of Famous Paintings by Titian: Venus with a Musician and a Cupid. Mougins, 1970. Gravura em cobre; impresso em papel pergaminho Rives. Disponível em: https://museupicassobcn.cat/en/collection/artwork/divertimento-series-famous-paintings-titian-venus-musician-and-cupid. Acesso em: 4 jun. 2024.


PICASSO, P. Venus y el Amor (según Cranach) (Primera variación). Paris, 1949. Litografia. Lápis litográfico sobre papel litográfico transferido para pedra. Disponível em:https://museocasanatalpicasso.malaga.eu/la-coleccion/catalogo/detalle-de-la-obra/index.html?id=243. Acesso em: 4 jun. 2024.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASTRO, M. J. M.; ALMEIDA, C. R. A Vênus e seu corpo histórico nas obras de arte. UNIÍTALO em Pesquisa, São Paulo, v.8, n.4, 2018. p. 180-197.


LOPONTE, Luciana Gruppelli. Sexualidades, artes visuais e poder: pedagogias visuais do feminino. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 2, 2002. p. 283-300.


MARTÍN, M. C. La construcción de Venus: fragmentación, montaje y despersonalización del cuerpo femenino en la estética. In: CARRETERO, M. P. A.; FRANCO, M. del R. R. (coord.). Representación, construcción e interpretación de la imagen visual de las mujeres. Madrid: [s. n.], 2003. p. 439-456.

● Maria Eduarda Siqueira Leite

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