Centauros de Picasso: O Perfazer de Figuras Mitológicas

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! No texto de hoje seguiremos investigando a recepção dos clássicos na obra de Pablo Picasso (1881-1973), um dos artistas mais influentes do século XX. Entre as várias figuras mitológicas que o artista incorporou em suas obras, amplamente reconhecidas pela capacidade de reinventar e reinterpretar temas, estão os centauros. Sua presença recorrente, embora menos comentada do que a de sátiros ou minotauros, revela a habilidade de Picasso em infundir novos significados às figuras do passado.

Na mitologia grega, os centauros (κένταυρος) eram seres fantásticos, híbridos de homem e cavalo. Segundo a literatura greco-romana, eram seres violentos e agressivos, dualizados pelo instinto animalesco e civilidade humana. Eram notórios beberrões, indisciplinados, delinquentes e propensos à violência, quase sempre figuravam nos mitos como violentadores, luxuriosos e sequestradores de mulheres (fig. 2 e 10). Há, contudo, exceções notórias, como Quíron e Pholus, reconhecidos por seu heroísmo e sabedoria (fig. 6).

A obra de Pablo Picasso é uma rica tapeçaria de influências, e sua fascinação pela Antiguidade Clássica é evidente em várias fases de sua carreira. Em 1920, o pintor publicou uma série de litografias sobre o centauro Nesso e o rapto de Dejanira, conforme narrado pelo poeta romano Ovídio (fig. 1). Segundo José Martínez (1973, p. 140), este é justamente o precedente de uma longa série de composições produzidas nas décadas de 1920 a 1950 inspiradas na mitologia clássica. Nesse ínterim, sátiros e centauros (por vezes em companhia de mulheres e bacantes) figuram entre as mais recorrentes personagens da obra do pintor, tanto em desenhos (fig. 3 e 4) quanto em esculturas (fig. 9).

Interessante observar que Nesso é um dos poucos centauros que Picasso representa com exímia fidelidade às fontes literárias. Em um acesso de luxúria, Nesso tenta sequestrar Deianira, esposa de Hércules, mas é morto com uma flechada do herói. A figura desse ser híbrido abraçando uma mulher se torna um conjunto alegórico recorrente na obra do malagueño e, conforme aponta Juan Carrete (2014), o centauro passa a ter características do próprio Picasso que projeta uma imagem de si mesmo como um monstro híbrido em sua busca apaixonada (fig. 2). Em 1947, Picasso ilustrou histórias da obra Dos contes, de seu falecido amigo Ramón Reventós Bordoy (1880-1923). Uma delas é El centaure picador, o conto do último dos centauros que nasce em Pireu e foi adotado pelo narrador, na Catalunha (fig. 5, 6 e 8). O centauro passou por sua série de desventuras, em parte por sua decidida posição política à esquerda, contrária ao conservadorismo de seu adotador. Uma das mais conhecidas ilustrações desse livro foca no episódio de nascimento do centauro, quando sua mãe faleceu em virtude do parto e seu pai desceu ao Hades em profunda dor (fig. 5).

Picasso utilizou a figura do centauro em diversas mídias, incluindo pintura, escultura e desenho. Em suas representações, ele frequentemente misturava o vigor e a brutalidade do centauro com uma sensação de vulnerabilidade e introspecção, criando uma complexa metáfora visual. A Suíte Vollard (1930-1937), por exemplo, apresenta vários centauros em diferentes contextos, explorando sua natureza dual e seu lugar na psique humana. Através de linhas fluidas e um uso dramático de luz e sombra, Picasso consegue capturar a ambiguidade dos centauros, ora retratados como seres selvagens (fig. 2, 9 e 10), ora como figuras contemplativas (fig. 4, 6 e 7).

A representação dos centauros na arte de Pablo Picasso é um testemunho de sua habilidade em dialogar com o passado, reinterpretando mitos antigos à luz de suas próprias experiências e mundividências. Ao integrar essas figuras mitológicas em suas obras, Picasso não só remete à Antiguidade Clássica, mas edifica uma verdadeira recepção de seus signos e significados, refletindo a condição humana e o fazer artístico.


Referências:


CARRETE, Juan. Picasso: fauno, centauro, minotauro. Arte Procomún, [S.l.], 2014. Disponível em: https://sites.google.com/site/arteprocomun/picasso-fauno-centauro-minotauro-por-juan-carrete. Acesso em: 17 jun. 2024.

FLORMAN, Lisa. Myth and Metamorphosis: Picasso’s Classical Prints of the 1930s. Massachusetts: Massachusetts Institute of Technology, 2000.

MARTÍNEZ, José María Blázquez. El mundo clásico en Picasso. Discursos y ponencias del IV Congreso Español de Estudios Clásicos. Barcelona/Madrid, p. 139-155, 1973. Disponível em: https://www.cervantesvirtual.com/nd/ark:/59851/bmcrf637. Acesso em: 17 jun. 2024.

  • Felipe Daniel Ruzene

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