Sátiros e Faunos de Picasso: Uma ode à alegria no pós-Segunda Guerra

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Como os textos anteriores demonstram, Picasso criou ao longo de sua carreira diversas obras com temas clássicos ou influenciadas de alguma forma pela antiguidade. Alcalde, Asencio e Macías (2007) propõem uma divisão das obras de tema clássico do artista em três grupos: obras “fieis” ao mito clássico; obras nas quais o mito é descontextualizado e os seres híbridos ganham protagonismo; e obras que são variantes das produções de outros grandes artistas. No segundo grupo é onde se encontram o minotauro, os centauros e os faunos.

Os sátiros e faunos estão entre as criaturas mitológicas recorrentes na obra de Picasso. Villalobos e Fuentes (2017), ao realizar uma análise dos simbolismos associados aos bodes e cabras, destacam que a hipersexualidade do animal fez com que, já na antiguidade, fossem relacionados à luxúria. De acordo com os autores, os sátiros e faunos, seres híbridos entre homem e bode, também possuíam uma forte associação com a luxúria, eram considerados divindades do campo e dos bosques ligadas à fertilidade animal e vegetal e faziam parte do cortejo dionisíaco.

Muitos autores, como Alcade, Asencio e Macías (2007) e Martínez (1973), defendem que o artista utiliza os seres mitológicos para criar uma realidade própria. Tirados de seu contexto nos mitos da antiguidade, eles se tornam parte do mundo mítico pessoal, até mesmo autobiográfico, de Picasso; “el mundo clásico ha influido en Picasso prestándole seres mitológicos que el artista utiliza para crear su Mitología moderna” (Martínez, 1973, p. 154).

Os sátiros e faunos são, inclusive, muitas vezes entendidos como alter egos do artista. Tais personagens são recorrentes principalmente nas obras feitas durante os anos 1946 e 1947, período marcado pela estadia do artista em Antibes com a amante Françoise Gilot. Essa criação de uma mitologia própria, iniciada na década de 1930, tem continuidade nas obras desse período. Entretanto, em contraste com a década de 30 quando  as pinturas eram mais sombrias, os trabalhos desse biênio imediatamente depois da Segunda Guerra são comumente entendidos como representações da alegria e da paixão pela vida do artista, além de celebrações da paz. Enquanto os faunos da década de 30 possuíam um tom trágico e melancólico, paralelo ao Minotauro (Alcalde, Asencio e Macías, 2007, p. 308), os de 1946-47 são sorridentes, tocam flauta e dançam na companhia de outras figuras, como os centauros ou mulheres nuas.

 De acordo com Hamilton (1955), Picasso traz nas imagens de Antibes um mundo anterior, panteísta, no qual  a natureza era mais próxima e misteriosa e a distância que separa os homens e outras criaturas era menor; o artista traria também a mensagem de que não estamos tão distantes do mundo natural quanto se costuma acreditar. Hamilton também argumenta que na década de 1930 Picasso apresenta uma imagem repulsiva da humanidade, o homem como degradado, enquanto que em Antibes ele encontra uma nova afinidade do homem com o divino, com as divindades da floresta. Nessa realidade própria do artista, portanto, ele traz a vida individual como de imensa importância, traz o riso, o prazer e a alegria, associando a humanidade com os deuses dos bosques, sátiros e faunos.

Esses seres híbridos entre homem e bode, portanto, ainda que apareçam tanto em trabalhos anteriores como posteriores, ganham protagonismo maior nas obras de Antibes. Tais obras continuam o movimento de criação de uma mitologia própria do artista, porém apresentam uma realidade mais positiva do que a imaginada na década passada. Os sátiros e faunos desse período povoam cenas em sua maioria alegres, celebrando a paz e a vida depois dos sombrios anos de guerra.

REFERÊNCIAS:

ALCALDE, Carlos; ASENCIO, Pablo; MACÍAS, Cristóbal. Picasso y la mitología clásica. Myrtia, n. 22, p. 297-317, 2007.

HAMILTON, Carol. Picasso at Antibes. The Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 13, n. 4, p. 478–485, 1955.

MARTÍNEZ, José María Blázquez. El mundo clásico en Picasso. In: Congreso Español de Estudios Clásicos, 4, 1971, Barcelona e Madrid. Discursos e Apresentações… Madrid: Sociedad Española de Estudios Clásicos, 1973. p. 139-155.

VILLALOBOS, Cristóbal Macías; FUENTES, Delia Macías. Symbolism of the Goat and Its Presence in Picasso’s Work. Arts, v. 6, n. 3, p. 1-21, 2017.Presence in Picasso’s Work. Arts, v. 6, n. 3, p. 1-21, 2017.

MARTÍNEZ, José María Blázquez. El mundo clásico en Picasso. In: Congreso Español de Estudios Clásicos, 4, 1971, Barcelona e Madrid. Discursos e Apresentações… Madrid: Sociedad Española de Estudios Clásicos, 1973. p. 139-155.

VILLALOBOS, Cristóbal Macías; FUENTES, Delia Macías. Symbolism of the Goat and Its Presence in Picasso’s Work. Arts, v. 6, n. 3, p. 1-21, 2017.

  • Camila Iwahata

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