
Na experiência surrealista da primeira metade do século XX, o “real” conhecido foi posto à prova. A busca por novas conexões, linguagens e subjetividades foi o que almejou o movimento a partir da negação de normas e formas pré-estabelecidas. O acontecimento da Primeira Guerra Mundial e as novas tecnologias do centenário, fizeram surgir inéditas discussões ocasionadas pelo choque da violência do conflito e pela consequente crise do que se entendia por humano.
Em consonância com a psicanálise freudiana desenvolvida nas décadas anteriores, determinados discursos vanguardistas e surrealistas buscaram exaltar o que se escondia debaixo dos panos “racionais” a fim de demonstrar as contradições gritantes da modernidade. Foi nesse sentido que o pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973) fez do visual uma contundente ferramenta não só de desconstrução, mas também de produção de ideias. Esses deslocamentos foram fundamentais para o que buscavam os surrealistas, além de negar a normativa do discurso “racional”/racionalizante, também propor uma outra forma de organização da realidade que destacava o inconsciente, o desejo e o erótico.
Nessas viradas, a recepção da antiguidade nas artes visuais e na literatura se tornou um importante instrumento de crítica a um presente que fora construído sobre a base de um passado idealizado. Negar o clássico em seu discurso de unicidade e ordem e se apropriar deste por meio de adaptações, permitia outras visões de mundo. Na obra de Pablo Picasso, se encontram extensivas referências a temas clássicos, sendo o mito do Minotauro uma das principais. A figura híbrida se tornou uma espécie de experiência visual nos quadros e gravuras do pintor espanhol conforme os diálogos existentes nesse contexto.
De acordo com Lisa Florman, diversos especialistas determinaram um “período clássico” para a oeuvre de Picasso nas décadas de 1910 e 1920. Entretanto, conforme explora a autora na obra Myth and Metamorphosis: Picasso’s classical prints of the 1930s, o antigo greco-romano atravessou a subjetividade artística do pintor muito além disso. Uma grande quantidade de minotauros foram produzidos por Picasso nos anos de 1930 e também posteriormente, como é o caso das obras Minotauro cego guiado por uma menina de 1934, Minotauromaquia de 1935 e uma séries de outras produções encontradas na coleção Vollard Suite (1930-1937).
Os minotauros de Picasso incorporaram algumas questões profundamente ligadas à consciência, ao desejo, à sexualidade e a modos de ver e interpretar a relação entre o interior da mente e o mundo externo. A condição híbrida do monstro reflete uma dualidade inseparável: o minotauro não é metade touro e metade homem, é touro e é homem ao mesmo tempo. A tradição espanhola da tourada, também conhecida como tauromaquia, na arte de Picasso, torna-se a minotauromaquia. O “monstro”, desse modo, é tanto aquele que sacrifica quanto o que é sacrificado, o embate entre homem e animal se volta ao íntimo e ao pessoal do indivíduo. Não há um herói a vencer e nem um adversário a ser vencido, dado que ambos são um e o mesmo.
Se, na antiguidade, o mito do minotauro representava, entre outras interpretações, uma forma de exaltar a razão sobre o bestial, na leitura vanguardista da modernidade, a recepção deste expressa a contradição de opostos que convivem simultaneamente no inconsciente. Picasso dá materialidade ao intelecto por meio do visual e concede à suas obras características brutalmente carnais e vorazes ao mesmo tempo que preenchidas com delicadeza. É deste modo que o pintor elabora uma transgressão ao “clássico” e altera formas greco-romanas bem conhecidas para apresentar outras imagens que não aquelas ditadas por uma estética de rigor humanista. A proposta de Picasso, portanto, se afirma no exercício de alterar a realidade discursiva do século XX e substituir o racional harmonioso pelo sensível visceral.


Referências:
ASSUNÇÃO, Diego Paleólogo. Produção de Alteridade: a experiência do Minotauro. Dissertação (Mestrado em Letras) Departamento de Letras do Centro de Teologia e Ciências Humanas, PUC-Rio, Rio de Janeiro. 2010.
FLORMAN, Lisa. Myth and Metamorphosis: Picasso’s Classical Prints of the 1930s. Massachusetts: Massachusetts Institute of Technology, 2000.
- Guilherme Bohn dos Santos




Deixe um comentário