Picasso se vai e nos deixa no limite das linhas dos textos.

Em onze pequenos ensaios pudemos acompanhar os diálogos do pintor com a Antiguidade greco-romana. Vimos os modos de compreensão, adaptação e subversão pelos usos de um passado tão antigo; conhecido, mas que, com vigor, influencia nossos modos de agir no mundo, mostrando que há potência em novos olhares. No nosso caso, buscamos compreender e transmitir ao leitor, partindo de perspectivas atuais, os métodos de aplicação desse passado, e em como ele foi manejado por Picasso.

Começando pelo começo. No primeiro texto, intitulado Inspirações de Picasso: Por entre Gregos e Romanos, a autora Heloisa Motelewski introduz o assunto e monta o tabuleiro de ação sobre o qual o grupo irá se debruçar nos textos seguintes. Expõe a reapropriação do artista sobre as produções gregas e romanas antigas, num momento em que estavam sendo usadas para justificar outras posições políticas – aquelas as quais a obra de Picasso irá se inclinar contra.

Dando sequência, o segundo ensaio – também escrito por Motelewski – leva o título de Picasso Festeja entre Bacantes: mulheres modernas pelo prisma dos cultos, no qual, com um arcabouço psicanalítico, filosófico e histórico, analisa a representação báquica e feminina na obra do pintor malaguenho. Foca na construção de imagens dos rituais dionisíacos e de mulheres nas litografias, unindo às diferentes discussões que se desenrolaram no início do século XX.

O terceiro texto foi escrito por mim, batizado de As metamorfoses de Picasso: um olhar sobre as ilustrações em Metamorfoses (1930), diálogo com o texto anterior na medida em que analiso a gravura “As filhas de Mínias”, a qual se encontra na edição das Metamorfoses de Ovídio publicada por Skira em 1931, com tradução francesa de Georges Lafave de 1928 e ilustrações do pintor executadas entre 18 de setembro e 20 de outubro de 1930.

O ensaio seguinte é autoria de Renata Cristina S. de Oliveira, cujo título é Os gregos no cubismo: Picasso ilustra a Lisístrata de Aristófanes. Oliveira direciona sua atenção à comédia grega Lisístrata, publicada em 1934, em uma edição especial do The Limited Editions Club, em Nova York. Atenta-se à escolha da obra a ser reinterpretada nas ilustrações, já que a recepção da obra é multifacetada: em uma mão, um apelo pacifista; na outra, ponto de partida para discutir a sexualidade feminina e suas reivindicações políticas.

Como quinto texto temos Mulheres mitológicas em Picasso: as representações da deusa Vênus, no qual a autora Isabela de Oliveira Fedorovicz irá pensar as relações de poder e gênero a partir das idealizações da deusa Vênus, evidentes na obra de Picasso. Num primeiro momento, na primeira parte sobre o tema – esse texto – se põe a analisar historicamente a figura da deusa na arte, enquanto na segunda – o ensaio seguinte –discute questões de gênero da arte, com ênfase em Picasso, utilizando para tal, a figura mitológica da deusa do amor. Sendo assim, o texto seguinte leva o título de Mulheres mitológicas em Picasso: questões de gênero na figura de Vênus, e é de autoria de Maria Eduarda Siqueira Leite, na qual, por um viés de deformação dos corpos, explica que Picasso articulou o desenho de modo a trazer certa instabilidade às imagens da deusa, montando com o desenho um corpo fragmentado.

Felipe Daniel Ruzene desenvolve, no ensaio Centauros de Picasso: o perfazer de figuras mitológicas, as formas de aparição dos centauros na obra do pintor. Demonstra que o ser híbrido, dicotômico, metade humano, metade animal, ecoa em Picasso como uma forma de projetar uma imagem de si mesmo como monstro híbrido em sua busca apaixonada.

No oitavo texto Sátiros e Faunos de Picasso: uma ode à alegria no pós Segunda Guerra, Camila Iwahata nos conta da aparição desses seres na extensa obra do artista. No invocar a fertilidade e luxúria – e parte do mundo mítico pessoal do pintor, entendidos muitas vezes com alter egos do artista –, percebe-se os diversos usos dessas figuras. Por vezes traria a mensagem de que não estamos tão distantes do mundo natural, como se pensa por costume. Em alguns momentos, de modo a criar uma imagem repulsiva da humanidade; em outros, aproxima o homem ao divino, às divindades da floresta, traz o riso, o prazer e a alegria, em comunhão a humanidade e os deuses percorrem os bosques entre sátiros e faunos.

O Minotauro é evocado por Guilherme Bohn dos Santos no texto Picasso e o Minotauro: mito antigo e modernidade na arte surrealista do século XX, no qual expõe um contexto de experiência surrealista da primeira metade do século XX, que pôs à prova o real e no qual Picasso está inserido. Mostra que o Minotauro do artista incorpora questões ligadas à consciência, ao desejo, à sexualidade e a modos de ver e interpretar a relação entre o interior da mente e o mundo externo.

Partindo agora para o cenário curitibano, Alcindo de Paula apresenta a exposição que ocorreu no ano de 1994 no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, na qual a cidade de Curitiba recebeu a exposição Suite Vollard, composta por cerca de cem gravuras em metal do pintor espanhol. Paula nos conta no papel da exposição em reforçar a capital paranaense como um dos importantes centros culturais do país.

Por fim, em Suite Vollard e os olhares paranaenses sobre o Minotauro de Picasso, Luana Treska nos volta o olhar à produção paranaense que correu paralela à Suite Vollard. O Museu de Arte Contemporânea do Paraná propôs apresentar produções artísticas da interpretação da obra Minotaure, buveur et Femmes, estes reunidos no catálogo Suite Vollard; Picasso – Uma Interpretação Paranaense, organizado pelo MAP no mesmo ano.Ecoam na produção paranaense, o mesmo modo anticlássico, abstrato e fluido das obras do pintor.

Para encerrar nosso percurso pelas obras de Picasso, nos despedimos ressaltando a potência dos usos do passado. Delineado pelos vapores políticos, percebemos a subversão via forma e temática; a procura por mostrar tanto um passado menos estanque, quanto um olhar a um futuro mais fluido. A proposição não mais da busca por um passado modelo, mas da demanda de tencionar um olhar mais voltado para si – ainda que caibam críticas válidas e que devem ser bem posicionadas na mesa. Agradecemos você, leitor, por trilhar este caminho conosco e esperamos que estes textos sejam um convite a você se aventurar também num passado não tão distante.

  • Fábio Vinicyus Gessinger

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