Na História da música e da poesia da Antiguidade, não era tanto incomum que os melhores e mais famosos escritores ganhassem auras míticas, ou cultos. A figura de Homero tem sua existência ainda questionada, assim com Arquíloco, possível fundador das poesias de humor, tem seu altar religioso na ilha de Paros. O trajeto de Orfeu, no entanto, parece ter feito o caminho contrário. Enquanto mítico representante do poder dos versos, parecia aos antigos gregos um humano extraordinário: um estrangeiro, da Trácia, que compunha versos cuja beleza enfeitiçava e lhe dava poder sobre a natureza, os animais, e até sobre os deuses para que pudesse descer aos infernos, trazer pessoas de volta à vida.
Mas quem diz “quem canta os males espanta” certamente lê a história de Orfeu pela metade. Sua poesia evoca também a dor. No mito, ele perde a amada duas vezes, esconde-se em meio aos campos, e é morto por mulheres possuídas de êxtase dionisíaco. Seja como for, o drama da vida desse personagem religioso evoca o poder transcendental do canto e, por que não, do vaticínio. Conquanto seja mito de origem grega que representa um divino de origem Trácia, é entre os romanos que o mito de Orfeu será descrito em poesias. Nos documentos da Grécia arcaica e clássica, as referências aos elementos da sua história aparecem em várias pinturas de ânforas, bem como em alusões textuais ou discussões filosóficas, como no banquete de Platão. Já em Roma, o mito fica documentado nas poesias de nomes como Ovídio e Virgílio, bem como nos mosaicos e pinturas de Pompeia, alçando Orfeu a um lugar novo: o de representante do poder da música não apenas em divertir, mas em encantar. Ao final do período imperial, Orfeu seria inclusive alçado à classe dos deuses, com culto que beirava o monoteísmo, e que muito dialogava com os protocristãos, sobretudo na sua relação com o renascimento enquanto faculdade natural do tempo e do mundo.
O impacto dessa história permaneceu na arte, e na música ao longo dos séculos de diversas maneiras: tanto pela interpretação, corrente na Idade Média, de que as referências à ressuscitação presentes nas obras antigas eram prenúncios de Cristo, quanto pelas intenções de retomada da Antiguidade dos movimentos do Renascimento e do Neoclassicismo. E, maias relevante do nosso ponto de vista, assim como Deus, Orfeu também foi brasileiro. Ao menos foi essa a constatação de Vinícius de Moraes, ao escrever a peça Orfeu da Conceição, encenada pelo Teatro Experimental Negro. Nesse momento, parecia-se querer ver no samba e na favela os mesmos hábitos de uma música estrangeira com relações mágicas com o mundo que aquela do mitológico cantor trácio. O tema ganhou, assim, presença marcante na arte brasileira: virou filme com Orfeu Negro, ainda nos anos 1950, e depois com o Orfeu de 1999. Apareceu em enredos da Viradouro no carnaval e em performances artísticas. Em cada uma dessas interpretações, os temas tradicionais da vida desse deus pareceram inspirar relações diferentes com o mundo. Elevam a cultura popular a um universo acessível pela elite. Aterram a musa grega com tradições antigas brasileiras. Procuram definir os sujeitos envolvidos a partir de um significante: uma relação mágica com o encanto. Mas também engessam e estereotipam traços de diálogos sempre incompletos.
Nesse ano de 2025, nosso grupo de estudos “Antiga e Conexões” se interessou, portanto, por esse tema órfico da morte e do renascimento. No entanto, com as mesmas frustrações do personagem mítico, Orfeu na arte nunca renasce sem alteração. Como é próprio da recepção, essas mudanças mesmas são as que fazem falar os contextos históricos ao mesmo tempo que descortinam aspectos do que faz a figura do mito ser ainda importante para nós: sua sobrevivência enquanto signo polifônico. Esperamos que gostem de acompanhar um pouco dessa trajetória que narra como Orfeu chegou até nós.
- Alexandre Cozer.




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