A figura de Orfeu (Oρφεύς) é, para o imaginário ocidental, inseparável da tragédia amorosa com Eurídice. Não obstante à base em contos da Antiga Grécia, tal narrativa aparenta ter sido registrada tardiamente pelas letras romanas (imortalizada por Virgílio e Ovídio). Voltando-nos aos textos da tradição helênica, encontramos uma figura mais difusa, mas não menos fascinante: a do poeta encantador, taumaturgo, iniciador de ritos religiosos e intermediário entre os mundos. Este texto propõe uma breve leitura da tradição textual grega sobre Orfeu, revisando a bibliografia especializada e as interpretações modernas que iluminam os mitos órficos.
As menções gregas a Orfeu são mais fragmentárias do que as versões literárias romanas. Mesmo assim, nelas é possível vislumbrar um personagem complexo, que vai muito além do amante inconsolável. De Hesíodo a Platão, Orfeu aparece como aquele que domina as palavras, a música e os ritos – um “homem sagrado”, nos moldes da antiga poesia hierática.
A figura mítica de Orfeu é suscitada nos antigos textos a partir de três possibilidades centrais: 1) O poeta mítico capaz de encantar a partir de sua lira (tema popular na arte e na tragédia); 2) O herói argonauta, bardo da tripulação de Jasão, que auxiliou na expedição para recuperar o Velocino de Ouro (suscitado pela épica); 3) O mestre de mistérios, fundador de cultos e ritualista por sua descida ao submundo (comum aos textos históricos e filosóficos). A figura trágica de Orfeu, o marido de Eurídice que desce ao Hades por amor, é apenas sugerida nos autores gregos.
Mesmo quando Eurídice aparece (como em Platão), o foco não é o amor, mas o fracasso de Orfeu em se sacrificar: ele é condenado não por amar, mas por hesitar. É interessante, porém, que as fontes gregas se mostram mais preocupadas em enfatizar sua capacidade de resgatar amantes do submundo, em vez de sua falha em fazê-lo. Esse detalhe tem sido muito debatido desde Ulrich Von Wilamowitz (que defendeu um final feliz original para a catábase de Orfeu) até Jane Ellen Harrison (que defende a inexistência de Eurídice no Período Pré-Clássico).
Mesmo os Hinos Órficos, supostamente utilizados no orfismo arcaico, foram reunidos somente entre os séculos II a IV d.C. e não mencionam a história do poeta, mas textos litúrgicos atribuídos a ele. Orfeu, enquanto iniciador, foi apropriado como autor de teologias esotéricas na antiga religião grega. O Orfeu trágico, por seu turno, é um projeto romano, que transforma o iniciador num mártir do amor, movimento que interessava mais à sensibilidade poética de Virgílio e Ovídio do que à religiosidade ritualística dos helenos.
Logo, voltar a Orfeu antes de Eurídice é redescobrir uma figura profundamente helênica, que fala da relação entre poesia, mistério e salvação. Entre os gregos, sua lira não era reconhecida por cantar lamentos, mas por abrir caminhos. Caminhos para o mundo que não é visível a olhos nus, para o “invisível” – cujo termo no antigo idioma era, justamente, Hades (Άͅδης). Orfeu é o poeta-sacerdote que atravessa a literatura grega em silêncio, nas entrelinhas dos versos e dos ritos, para revelar o desconhecido. Sua música não apenas move pedras e feras, ela constrói mundos – uma metáfora à própria poesia.
- Felipe Daniel Ruzene
Referências
CAVALCANTI, Luciano Marcos Dias. Orfeu, mito e poesia. Revista Literatura em Debate, v. 12, n. 22, p. 176–194, 2017.
GRAZIOSI, Barbara. Still Singing: The Case of Orpheus. In: GOLDSCHMIDT, Nora; GRAZIOSI, Barbara (Org.). Tombs of the Ancient Poets: Between Literary Reception and Material Culture. Oxford: Oxford University Press, 2018. p. 171-196.
SILVA, Francisca Luciana Sousa da. Orfeu, o cantor dos mistérios. Revista Entrelaces, Fortaleza, v. 3, n. 3, p. 46-54, 2013.




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