As vozes de Orfeu e seus ecos nos documentos gregos

Orfeu é, na tradição grega, mais um eco do que um personagem. Como Homero, Hesíodo ou Museu, seu retrato mito-poético se dispersa entre tragédias, discursos filosóficos e relatos históricos, construindo-se a partir de fragmentos e alusões. Neste texto buscamos reunir e comentar algumas das fontes documentais da antiguidade grega que apontam a figura órfica, traçando sua imagética do poeta mítico iniciador de mistérios ao ser divino representante do poder poético.

Fruto de uma tradição oral imemoriável, Orfeu é suscitado como um poeta trácio “de nome famoso” (ὀνομακλυτὸν Ὀρφήν) desde o século VI a.C. A menção mais antiga da qual temos registro é a de Íbico de Régio (frg. 306), citando-o em seus poemas de tema mitológico e homoerótico. Já no século V a.C., Píndaro (Pythian Odes, 4. 176-7) o insere entre os Argonautas como o “pai dos cantores”, associado ao deus da poesia, Apolo. Aqui Orfeu é uma força cósmica, uma espécie de proto-músico divino. Em Heródoto (Historia, 2. 81), ele aparece vinculado a ritos de origem egípcia e pitagórica, sugerindo seu papel como portador de doutrinas místicas.

Isócrates, no século IV a.C., afirma que Orfeu “costumava conduzir os mortos para fora do Hades” (Busiris, 8), descrevendo uma habilidade geral, não um resgate específico à Eurídice. Assim, parece que, em algum momento do Período Clássico, o poder de Orfeu de comover, através da música e da poesia, os deuses e os mortos do submundo inspirou uma história centrada em sua esposa. Todavia, sua figura já era relacionada à capacidade de resgatar amantes das planícies infernais, supondo que (para além do texto) histórias similares a de Eurídice podiam ser conhecidas.

Essas fontes constroem um Orfeu iniciático, angular à poesia hierática, mais próximo à figura de um poeta divino ou mestre artístico-iniciático do que de um personagem trágico ou amante de dons épicos. O foco recai sobre o poder mágico da poética, a fundação de ritos de purificação, e o papel de Orfeu como mediador entre humanos e deuses, entre vida e morte. Demóstenes (Orations, 25. 11), Aristófanes (Ranae, 1030-6) e Diodoro Sículo (Bibliotheca Historica, I. 23) também reforçam a dimensão religiosa de Orfeu.

O mito como normalmente o conhecemos – Orfeu ligado à Eurídice, sua descida ao Hades, morte pelas bacantes e conservação de sua cabeça como oráculo – só aparece em autores gregos posteriores a Virgílio e Ovídio, datados da Antiguidade Tardia (c. sécs. I e II d.C.). A descida de Orfeu ao Hades é mencionada explicitamente em Platão (Symposium, 179d) e em Pseudo-Apolodoro (Bibliotheca, 1.3.2), mas em ambas as versões não há vitória, apenas advertência.

Ademais, a filosofia socrático-platônica menciona Orfeu no terceiro livro de suas Leis (677d), citando-o como um dos homens para os quais a verdade das coisas foi revelada. Também nas Apologias (41a) e no Crátilo (402b), comparando Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero, bem como suas tradições mitológicas. É mencionado, ainda, o poder de encantamento pela música de Orfeu como metáfora às palavras sofísticas de Protágoras (315a). Por fim, no Ion (533b- c), Sócrates menciona-o pela habilidade de tocar flauta e harpa, cantar menestréis e rapsódias.

A morte de Orfeu pelas Mênades aparece em Pausânias e em tradição perdida de Ésquilo (uma de suas tragédias conhecidas apenas por resumos de pseudo-Eratóstenes, a Bassarai), com ecos em Estrabão. Trata-se de um fim que consagra sua filiação ambígua entre Apolo e Dionísio, morto por recusar a embriaguez em nome da música pura. As mulheres da Trácia despedaçaram o cantor durante os ritos báquicos, seus membros são velados pelas Musas em Leibethra, ao sopé do Monte Olimpo, e de sua cabeça nasce um oráculo capaz de enunciar profecias. O corpo despedaçado de Orfeu e sua cabeça que canta mesmo depois de morta, inauguram uma sacralidade inédita: a de uma voz que não silencia nem com a morte.

As fontes gregas sobre Orfeu não nos oferecem uma narrativa linear, mas um mosaico de sentidos. Ele é cantor, mestre religioso, argonauta, amante e sacerdote. E, em todas essas versões, permanece um símbolo do poder da palavra, capaz de encantar feras, de mover os mortos e de fazer vibrar o mundo.

  • Felipe Daniel Ruzene

Referências

DETIENNE, Marcel. The Writing of Orpheus: Greek Myth in Cultural Context. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2002.

GRAZIOSI, Barbara. Still Singing: The Case of Orpheus. In: GOLDSCHMIDT, Nora; GRAZIOSI, Barbara (Org.). Tombs of the Ancient Poets: Between Literary Reception and Material Culture. Oxford: Oxford University Press, 2018. p. 171-196.

ROALSVIG, Emma. A Personification of Poēsis: The Reception of Orpheus in Modern Poetry, Drama, and Film. Baltimore: Johns Hopkins University, 2020.

VERGARA, Fábio Cerqueira. A ascensão da alma por meio da música: uma abordagem iconográfica dos poderes da música no mito de Orfeu. Iter Encuentros, n. 11, p. 133–142, 2022.

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