Figuras que (en)cantam: Orfeu e a cultura material grega

O mito de Orfeu, famoso por sua música encantadora, capaz de amansar feras, mover pedras e desafiar a morte, foi amplamente representado na cultura material da Antiguidade. Mais do que meras ilustrações do mito, essas imagens revelam camadas complexas de significados, identidades e relações interculturais. Este texto propõe uma breve incursão por essa iconografia.

A iconografia cerâmica é uma das principais fontes para o estudo da recepção de Orfeu na Antiguidade. Curiosamente, ela apresenta divergências em relação ao discurso textual sobre o mito. Nela notamos a predominância de temas como a performance musical em que Orfeu encanta guerreiros trácios e, sobretudo, cenas de sua morte pelas mãos de mulheres trácias. Diferentemente das fontes literárias, onde a origem trácia de Orfeu não é tão enfatizada, na iconografia a presença dessas figuras, identificáveis pela vestimenta, é bem perceptível. Essas imagens não apenas ilustram o mito, mas constroem uma narrativa visual sobre alteridade e mediação cultural. Orfeu, por sua vez, é frequentemente distinguido de seus conterrâneos, representado visualmente como um jovem grego, o que pode indicar um processo de valorização cultural e estética no contexto do século V a.C.

O poder de encantamento sobre animais, plantas, rios e pedras está associado à capacidade musical da lýra de Orfeu, de dar vida ao inanimado. No hino homérico a Hermes, narra-se a produção da lýra e seu poder de “dar voz na morte ao animal silencioso na vida” (Cerqueira, 2013, p.155), evidenciando a relação entre música, vida e morte.

Na cerâmica da Magna Grécia, especialmente da Apúlia, Fábio Vergara Cerqueira (2021) identifica representações híbridas em que Orfeu simboliza o encontro entre o mundo grego e populações locais. A lýra, frequentemente associada a Orfeu, era considerada um instrumento tipicamente grego, mas suas representações diminuíram, substituída pela cítara helenística (Cerqueira, 2021, p.33). Embora Orfeu tenha permanecido ligado à kithára, vinculada à tradição clássica, essas mudanças de representações iconográficas funcionaram como sinalizadores étnicos e parte de dinâmicas identitárias. As imagens desses instrumentos musicais na cerâmica ápula, principalmente entre 440 e 400 a.C., não apenas representam a difusão do mito, mas também evidenciam processos de assimilação de valores culturais gregos (Cerqueira, 2012, p.48).

A materialidade associada a Orfeu desempenha um papel fundamental na construção e perpetuação da sua autoridade mítica e poética ao longo do tempo e dos territórios por onde o mito circulou. Objetos e representações materiais colaboram para a recepção e recriação da figura de Orfeu nas memórias coletivas. Dessa maneira, a cultura material desempenha um papel ativo na construção mítica. 

  • Gabriela Beduschi Guadagnin

Referência Bibliográfica:

CERQUEIRA, Fábio Vergara. A temática musical na iconografia dos lekythoi de fundo branco. Simbolismos funerários da lyra, do barbitos e da phorminx. In: CERQUEIRA, F.; GONÇALVES, A.T.; MEDEIROS, E.; BRANDÃO, J.L. (Orgs.). Saberes e poderes no Mundo Antigo. Estudos ibero-latino-americanos. 1. ed. São Paulo: Annablume, 2013. p.143-171. 

CERQUEIRA, Fábio Vergara. A ascensão da alma por meio da música: uma abordagem iconográfica dos poderes mágicos da música no mito de Orfeu. Iter, n. 11, p. 133–142, 2022.

GRAZIOSI, Barbara. Still Singing: The Case of Orpheus. In: GOLDSCHMIDT, Nora; GRAZIOSI, Barbara (Org.). Tombs of the Ancient Poets: Between Literary Reception and Material Culture. Oxford: Oxford University Press, 2018. p. 171-196.

Deixe um comentário