Quando falamos em Orfeu, normalmente pensamos em Grécia Antiga. Mas, assim como acontece na história de Cupido e Psiquê, a trajetória mitológica do nosso deus-poeta foi realmente registrada na literatura romana. E de fato, é dessa literatura que a maioria das referências artísticas posteriores retirará a informação e a simbologia que ressignifica. Ou seja: em grande medida esse deus grego foi realmente consolidado já na recepção poética de sua obra ou vida.
Vale, primeiro, ressaltar que o mito nesse universo pode desempenhar papeis diferentes. Em nível religioso, é certo que essas narrativas faziam parte de rituais aos deuses que lembravam suas funções aos religiosos (Edmonds, R. G. III, 2013). Nesse âmbito, é provável que o mito de Orfeu já fosse de conhecimento oral da população grega em formato parecido com aquele que a literatura imortalizou; bem como é provável que versões diferentes circulassem conforme os diferentes períodos da religião. Já em nível propriamente literário, o mito era usado para entreter, inspirar, e podia ganhar também sentido metapoético, representando ou o assunto trazido à tona pela literatura, ou reforçando uma lição importante que a anedota mitológica dava, e até mesmo sendo distorcido para fins de gênero literário. Esse tipo de uso literário dos romanos chegou a fazer Paul Veyne (2013) se questionar se os Antigos acreditavam em seus mitos. A verdade é que essas trajetórias acabaram recebendo uso diverso na cultura, o que não invalida a crença neles (Feeney, 1999).
O surgimento do tema se dá com ninguém menos do que Virgílio, e as seguintes aparições utilizam mais ou menos uma sequência parecida: primeiro, Orfeu aparece como deus da vida e da morte. Nas poesias de Virgílio, ele é lembrado em casos em que os personagens precisam evocar os que já se foram ou mesmo descer aos infernos. No caso desse autor, que tem na catabase de Eneias uma das mais famosas passagens de seus escritos, Orfeu surge como guia para pastores que perderam coisas amadas. Em seguida, o tema se desenvolve sobre o poder de Orfeu em controlar a Natureza, o que evoca a força da música e a sobrenatural capacidade do próprio poeta e da poesia como um todo, além de uma relação direta entre seu canto e a fertilidade e a vida. Em terceiro lugar, o deus é representado como mostra de amor sincero e louco, o que evoca sua relação com a música de amor (elegia) e com as trajédias possíveis, motivo pelo qual os outros dois poetas a consolidarem o mito de Orfeu serão Ovídio, elegista, e Sêneca, não em suas obras de filosofia, mas no teatro trágico. A relação com a poesia se consolida em outra imagem: Orfeu como deus-poeta ou poeta-deus. Em obras como a poesia Bucólica, que normalmente trata de outros poetas, o deus é considerado padrão de qualidade do verso. Por fim, o tema órfico mais famoso: sua relação com o sofrimento extra-humano, já que teria perdido duas vezes a amada Eurídice ao quebrar o pacto que fizera com os deuses inferiores.
Conta-se, pelo menos, que o poeta teria perdido a amada para a peçonha de uma cobra. Seu poder de canto teria feito o universo parar e comovido os deuses a deixáa-lo não apenas descer ao Hades para reencontrar Eurídice, como convencido o submundo a deixáa-lo trazer de volta a falecida. Mas os deuses – a anedota varia entre Tártaro, os Manes, Perséfone ou Hades – deram a condição de que ela o seguisse detrás e ele não olhasse para ela até que saíssem do inferno. Como o personagem não resiste e se volta, vê pela segunda vez a amada morrer e a perde.
Em termos religiosos, ainda falando, as práticas de Orfeu terão relação com todos esses quatro elementos e, para além disso, com dois outros aspectos rituais importantes: a) a pureza extrema, marcada não pelos mitos, mas já discutida desde os mais antigos fragmentos que tratavam do caso, como os papiros de Derveni; b) a relação com a eternidade não apenas da música, mas da alma; e c) uma relação com o estrangeiro marcada não apenas pelo inferno, mas pela origem trácia do deus. Em alguma medida, esses elementos estão mais presentes em Virgílio do que nos outros escritores romanos, o que pode indicar que o poeta fizesse parte das práticas órficas de culto (Bazuá, 2015). Seja como for, no final do período romano, esse personagem aparecerá em diversas manifestações religiosas. Muito associado ao culto de Dioniso, Orfeu seguirá embalando poesias de renascimento até o ponto de aparecer nas catacumbas cristãs e de ser estudado por sábios como Lactâncio e até mesmo emergir na gnose. Essa relação com o renascimento e o mistério do além também inspirariam alguns estudiosos do século XIX e XX a perceberem, no mito, a predisposição dos romanos e gregos a aceitar Jesus Cristo, ou mesmo a propor que Orfeu seria a essência do comportamento religioso em geral (Cf. Rainach, S., 1930). Atualmente, muito pouco se acredita nessa interpretação, e mesmo na de que, no período clássico, os romanos e gregos acreditassem na salvação da alma por Orfeu. Ainda assim, as práticas circunscritas de seu culto já apontam para uma mágica baseada em pureza física e transformação da realidade pela música. Em alguma medida, essa permanecerá sendo o desejo dos artistas.
- Alexandre Cozer
Bibliografia
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