Documentos latinos do mito de Orfeu

Como já mencionamos no texto da semana passada, os principais documentos sobre Orfeu na literatura romana são os que resumem o mito do deus. Claro, se fôssemos listar todas as referências indiretas e diretas ao tema, elas seriam muitas! Nos discursos, debates, poesias, e ensaios filosóficos, o exemplo do poeta era comumente lembrado, o que faz o mito praticamente onipresente nos autores latinos.  

Dos três que mencionamos ser os exemplos mais importantes, no entanto, cabe agora uma explicação mais relativa à própria forma da poesia. Em Virgílio o mito aparece em duas obras. Na poesia Culex, que os romanos entendiam ser da juventude do poeta, Orfeu aparece diante do mosquito, personagem principal da poesia. Ali, narra-se a aventura do inseto que pica um agricultor para acordá-lo de seu sono e fazê-lo Morto injustamente, o mosquito realiza uma debra-se a história do deus, mas ressalta-se a dor de viver no amor. Aristeu termina conseguindo aprender um ritual, chamado de palingenesia; bastante nojento: deixar vitelos mortos apodrecerem para que ressurjam as abelhas dos cadáveres fétidos. A imagem evoca muitos dos elementos que vimos pertencerem aos rituais classicamente órficos, mesmo assim, ainda que se pense Virgílio como possível poeta órfico​ (Bazuá, 2015)​, o mito também é lido em termos metapoéticos, assumindo que Orfeu representaria a elegia, canto de amor derrotado, e que Aristeu indicaria o trabalho agrícola como sendo a verdadeira forma de amar, de superar o sofrimento e valorizar o renascer da natureza ​(Conte, 2007)​. 

Seja como for, quem realmente leu Virgílio como metapoesia parece ter sido o próprio Ovídio, famoso por ser um dos poetas mais cheios de recursos. O tema desse mito não seria a primeira forma de competição entre os poetas (Segal, 1972; Conte, 2007), mas ganha um valor programático nas Metamorfoses do elegista. Isso porque Ovídio realiza uma grande inversão: se Orfeu de Virgílio era um eterno sofredor por amor, o que por si só lembraria a essência da elegia negada pelo poeta mantuano, esse novo Orfeu é agora dedicado ao amor, ele volta ao mundo sem a amada e decide que, uma vez que está sozinho, vai se dedicar ao amor de rapazes. Embora haja um tom de piada, esse final não é necessariamente estranho ao mundo mitológico romano. Para Suetônio, na biografia de Virgílio, esse poeta preferiria o amor de rapazes ao de meninas, e as informações arqueológicas indicam uma certa proximidade de Orfeu e os rapazes de modo geral. Assim, embora o tema seja alçado ao valor de metapoesia, novamente, ele não precisa excluir a interpretação, por Ovídio, de outros materiais.

Por fim, em Sêneca, a história de Orfeu já aparece mais fragmentada. É sobretudo mencionada em três peças de drama: Medeia, Hércules Furioso e Hércules Eteo. Nos dois últimos, a história é mais desenvolvida e, por esse motivo, trazemos as traduções de ambas as referências. Curioso que seja, a localização do mito nas obras de Hércules serve para comparar o poder dos personagens, um que manipula os deuses pelo verbo, outro pela força. Na peça do furioso, trata-se do episódio em que Hércules, bêbado, mata sua família e tem por dever continuar a vida apesar de seu grande erro. No segundo, Orfeu é o personagem que aconselha Hércules a aceitar a vida como ela é, inclusive no seu fim. Curioso que seja, a peça não trata realmente da morte, mas da ascensão de Hércules ao céu. Em que pese a superação da morte pela virtude ser tema importante entre os estóicos, não é, novamente, aleatória a escolha de Orfeu para a peça: ela reforça a conexão do poeta com a transposição de realidades e de mundos. Como já sabemos, é essa mesma solução narrativa que fará o mito permanecer como símbolo pelo resto dos tempos.

  • Alexandre Cozer

Bibliografia

Bazuá, H. F. (2015). Virgilio y el Orfismo. Nova Tellus, 32.2, pp. 251-269.

Bowra, C. M. (1952). Orpheus and Eurydice. The Classical Quarterly, 3-4, pp. 113-126. doi:https://doi.org/10.1017/S0009838800007722

Conte, G. B. (2007). Virgilio: l’epica del sentimento. Turim: Einaudi.

Dion, J., & Heuzé, P. (2015). OEuvres complètes de Virgile. Paris: Pléiade.

Ovidio. (2017). Metamorfoses. (D. L. Dias, Trad.) São Paulo: Editora 34.

Segal, C. (1972). Ovid’s Orpheus and Augustan Ideology. Transactions ans Proceedings of the American Philological Association(103), pp. 473-494. Acesso em 10 de 03 de 2025, disponível em http://www.jstor.org/stable/2935989

Seneca. (2018). Tutte le opere. (G. Reale, Trad.) Milão: Einaudi.

Walsh, L. (2009). Orpheus in Seneca’s MEdea. American Classical League, 86, pp. 123-131. Acesso em 26 de 04 de 2025, disponível em https://www.jstor.org/stable/43939940?seq=1&cid=pdf-reference#references_tab_contents

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