Entre as figuras míticas mais difundidas na cultura material do Império Romano, Orfeu ocupa um lugar especial. Sua imagem em mosaicos encantando animais tornou-se uma das preferidas da Antiguidade Tardia. A partir de meados do século II d.C., e sobretudo depois de 200 d.C., a cena proliferou em várias províncias, assumindo uma posição de destaque na decoração de vilas, edifícios públicos e contextos funerários.
A presença desses mosaicos em regiões hoje correspondentes a países tão diversos como Tunísia, Turquia, Itália, Espanha e França revela a força simbólica do mito. No Norte da África, por exemplo, o mosaico encontrado em El Djem, Tunísia (Figura 1) destaca Orfeu como contraponto à brutalidade da arena e da caça, apresentando-o como um pacificador capaz de domar a violência. Na Península Ibérica, o mosaico de Saragoça (Figura 2) mostra o herói em túnica listrada e barrete frígio, ressaltando sua origem oriental e sugerindo também funções protetoras em espaços públicos. Na Sicília, em Palermo (Figura 3), a iconografia adquire caráter mais complexo, aproximando-se de leituras órficas sobre a criação do mundo e a transcendência da alma.
No Leste, mosaicos de cidades como Edessa (atual Urfa, Turquia) mostram Orfeu em contextos funerários, mesmo em comunidades cristãs, demonstrando a permanência do repertório pagão (Figura 4). Já na Gália, exemplares como o de Saint-Romain-en-Gal (Figura 5) apresentam versões estilizadas, inserindo Orfeu em repertórios locais de prestígio.Essa presença constante do mito mostra que Orfeu era mais que um simples tema decorativo, ele também expressava valores partilhados em diferentes províncias do Império. Como símbolo da romanitas, condensava a ideia de ordem sobre o caos, mas também dialogava com tradições helenísticas e orientais, adaptando-se às expectativas religiosas, políticas e sociais de cada região.





REFERÊNCIAS
JESNICK, Ilona Julia. The Image of Orpheus in Roman Mosaic: An exploration of the figure of Orpheus in Graeco-Roman art and culture with special reference to its expression in the medium of mosaic in late antiquity. Oxford: BAR International Series, 1997.
REFERÊNCIAS ICONOGRÁFICAS
Figura 1:
Mosaico do museu arqueológico de El Djem (Tunísia), descoberto no bairro de Bir Zid e datado do século II. Disponível em: < https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mosaique_Orph%C3%A9e_El_Jem.jpg >. Acesso em: 15/09/2025
Figura 2:
“Casa de Orfeu”, próxima às muralhas romanas de Caesaraugusta (atual Zaragoza), Espanha. Descoberta em 1982. Atualmente no museu de Zaragoza. Disponível em:
< https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Zaragoza_-_Museo_-_Mosaico_de_Orfeo_01.jpg >. Acesso em: 15/09/2025.
Figura 3:
Orfeu cercado por animais. Palermo – Itália. Descoberto em 1780. Hoje no Museu Arqueológico de Palermo. Disponível em: < https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:DSC00355_-_Orfeo_(epoca_romana)_-_Foto_G._Dall%27Orto.jpg >. Acesso em: 15/09/2025
Figura 4:
Orfeu – Edessa (Atual Urfa – Turquia). Descoberto em 1980. Hoje no Haleplibahçe Mozaik Müzesi, em Şanlıurfa, Turquia. Disponível em: < https://www.reddit.com/r/ancientrome/comments/u9ktqu/the_mosaic_of_orpheus_roman_period_c_194_ad/?tl=pt-br#lightbox >. Acesso em: 15/09/2025
Figura 5:
Orfeu rodeado de animais com as quatro estações nos cantos. Saint-Romain-em-Gal, França. Descoberto em 1899. Atualmente no J. Paul Getty Museum, Los Angeles. Disponível em: < https://mythotopia.eu/?p=artvis&id=46&lang=en >. Acesso em: 15/09/2025.




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