Dando continuidade às nossas pesquisas sobre Orfeu, ao qual nós iniciamos investigando as facetas greco-romanas da figura, a partir de agora partiremos para uma nova fase, às recepções do mito em nossa contemporaneidade. O cinema brasileiro possui uma singular conexão com o mito de Orfeu, havendo dois filmes com a temática, Orfeu Negro (1959), dirigido pelo francês Marcel Camus e de produção franco-ítalo-brasileira, e Orfeu (1999) do cineasta Cacá Diegues e de produção inteiramente nacional. O que os dois filmes partilham em comum? A peça Orfeu da Conceição (1954) de Vinicius de Moraes, no qual o poeta transplantou o mito de Orfeu e Eurídice do passado Clássico para o morro carioca.
A ideia teria surgido quando o poeta brasileiro acompanhou o escritor estadunidense Waldo Frank em sua visita ao Brasil em 1942 (DIAS, 2011, p. 27). Percorrendo a Bahia e o Rio de Janeiro, Frank compara os ritmos e festividades do morro carioca negro com os antigos gregos, cujo comentário teria despertado a ideia de recriação do mito órfico no ambiente brasileiro, com centralidade na cultura negra do morro carioca, sendo assim encenada pelo elenco do Teatro Experiamental do Negro (TEN) em 1956 (DIAS, 2011, p. 27-28). A peça de Moraes segue uma tradição de representações do mito de Orfeu e Eurídice, no qual a história de amor entre o músico e a ninfa é enfatizada nas pastorales (antecessoras das óperas) e óperas renascentistas, sendo interpretada em diferentes versões desde o século XV até o nosso tempo presente. Tamanha influência dessa tradição de representações, que além do mito, Moraes teria tido contato com a ópera Orfeu e Eurídice (1762) de Christoph Willibald Gluck para a composição dos atos de sua versão.

Pôster da peça Orfeu da Conceição (Dias, 2011, p. 32).
Apenas alguns anos após a peça de Moras e baseado nesta, é lançado o filme Orfeu Negro, de Marcel Camus. O filme foi bem recebido, premiado em prestigiados eventos de cinema, como o Festival de Cannes e o Oscar; entretanto, sofreu também críticas de intelectuais brasileiros que apontaram sua representação romantizada do morro carioca e do povo negro (Capanema; Silva, 2019, p. 111). Em 1999, é lançado outro filme inspirado na peça de Moraes: Orfeu de Cacá Diegues. Integrante do movimento do Cinema Novo, cuja proposta era representar a realidade nacional e suas questões sociais (Capanema; Silva, 2019, p. 112), Diegues apresenta uma nova interpretação da peça e do mito, mais realista e inserida no contexto dos anos 1990, embora a narrativa oscile entre o realismo e o mito (Ferreira, 2018, p. 86).

Pôster alemão do filme Orfeu Negro (1959). Disponível em: [https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Orfeu_Negro,_1959.jpg]. Acesso em: 21 set. 2025.

Pôster do filme Orfeu (1999) (Dias, 2011, p. 172).
Nos próximos textos, iremos focar sobre as mulheres desses filmes, principalmente Eurídice, o icônico par romântico de Orfeu. Apesar do mito deste músico ser hoje muitas vezes interpretado como uma história de amor transcendental, Eurídice era na antiguidade uma figura secundária ou mesmo inexistente. De forma similar, em nossas pesquisas notamos que a bibliografia sobre Eurídice e as mulheres desses filmes era pequena. Assim, nos textos seguintes apresentamos algumas das questões de gênero que nos chamaram a atenção nessas obras cinematográficas e esperamos que sirva aos leitores interessados como um ponto de partida em suas pesquisas.
Camila Iwahata
Luana Treska
Referências
CAPANEMA, Letícia X.L; SILVA, Isabela F. Representação e raça em Orfeu: mito e realismo no cinema negro brasileiro. In: Catálogo da 15ª Mostra Internacional de Cinema Negro. Org.: Celso Luiz Prudente. SESC/SP, São Paulo, agosto 2019, pp 107-126.
DIAS, Fabiana Quintana. Orfeu: do mito à realidade brasileira uma análise da trilha sonora dos filmes “Orfeu Negro” (1959) e “Orfeu” (1999) baseados na peça “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes. 2011. 216 f. Tese (Doutorado) – Curso de Multimeios, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2011.
FERREIRA, Ceiça. Branquitude e regimes de visibilidade no cinema brasileiro: uma análise do filme Orfeu (1999). Comunicação midiática, Bauru, v. 13, n. 1, p. 78-93, jan./abr. 2018.




Deixe um comentário