Eurídice em Orfeu Negro (1959)

Olá, pessoal, esperamos que estejam todos bem! No texto de hoje continuaremos as análises das recepções de Orfeu, explorando a figura de Eurídice. Apesar de Eurídice ser a razão da descida do músico ao Hades, ocupa um papel secundário e, por vezes, obscuro, nas narrativas de Orfeu do passado antigo, mas que recebeu novas leituras nas representações posteriores que acentuaram a história de amor do poeta trácio, em especial a partir das recepções do mito entre os romanos. No texto prévio nós apresentamos os dois filmes que tratam do mito de Orfeu e Eurídice com especial conexão com o Brasil, assim, hoje iremos analisar a figura de Eurídice no filme Orfeu Negro (1959).

No filme de produção ítalo-franco-brasileira e direção de Marcel Camus, Eurídice (interpretada pela atriz estadunidense Marpessa Dawn, única estrangeira do elenco) chega de barco em um Rio de Janeiro em clima de Carnaval, logo conhecendo Hermes (Alexandro Constantino) e Orfeu (Breno Mello), um motorista de bonde que logo se encanta pela moça recém-chegada. No entanto, Orfeu está noivo de Mira (Lourdes de Oliveira), e em uma cena emblemática, ao irem ao cartório oficializar o casamento, após Orfeu informar seu nome, o funcionário declara “naturalmente a noiva se chama Eurídice” (14:00 min) para a confusão de Mira. Na sequência o funcionário esclarece que “Orfeu ama Eurídice, todo mundo sabe […] é uma velha história” (14:40 min), em uma das muitas cenas em que lembra o espectador que o filme é sobre um mito conhecido. Enquanto isso, Eurídice se estabelece na casa de sua prima Serafina (Léa Garcia), pois vinha fugindo de um perseguidor que acredita querer matá-la. Para o ciúme de Mira, Eurídice se aproxima de Orfeu nas festividades de Carnaval, mas a figura mascarada que persegue Eurídice a encontra. Tentando salvá-la, Orfeu a mata por acidente. Buscando encontrá-la novamente, com o auxílio de Hermes, Orfeu frequenta uma cerimônia religiosa afro-brasileira vigiada pelo cão Cérbero, quando ouve a voz de Eurídice uma última vez. Recuperando seu corpo na Quarta-Feira de Cinzas, Orfeu retorna a sua casa com Eurídice em seus braços, encontrando Mira furiosa que o acerta com uma pedra o fazendo cair do alto do morro e juntar-se à Eurídice na morte.

Hermes, Eurídice e Mira. ORFEU Negro. Direção de Marcel Camus. Produção de Sasha Gordine. Roteiro: Marcel Camus, Jacques Viot. [S.l.]: Dispat Films, Gemma Cinematografica, Tupan Filmes, 1959. (100 min.). 

Sob uma perspectiva de gênero, talvez o que mais chame atenção seja justamente a oposição entre Eurídice e Mira, personagem importante nos filmes, mas praticamente inexistente nas fontes antigas. No filme em questão, as duas principais personagens femininas se distinguem profundamente, pois enquanto Eurídice transmite uma imagem simplória, mesmo ingênua, traduzida em suas vestes e em seu estado desorientado com a grande cidade e suas festividades, Mira, por outro lado, apresenta-se de modo mais sensual e sagaz.

Cena em que Eurídice conta à Orfeu que as imagens do lenço retratam as “moradas do céu”, e que ela teria nascido na morada do carneiro. ORFEU Negro. Direção de Marcel Camus. Produção de Sasha Gordine. Roteiro: Marcel Camus, Jacques Viot. [S.l.]: Dispat Films, Gemma Cinematografica, Tupan Filmes, 1959. (100 min.). 

É como se, em seu papel de inspiração de Orfeu, Eurídice simbolizasse o celestial e transcendental, enquanto Mira seria o ordinário e mundano, com esse aspecto insinuado pelo lenço de Eurídice retratando o que parece ser as constelações do zodíaco, as “moradas do céu”, como descritas por Eurídice. Também é dado a entender que a relação de Orfeu e Eurídice transcende o tempo quando o músico conta para Eurídice a “velha história de uns mil anos atrás” e a moça diz se recordar das palavras cantadas por Orfeu. Em uma outra leitura, poderíamos ler sob a chave da oposição cristão de pureza/pecado, ou poderia mesmo ser um retorno às origens greco-romanas com a oposição apolínea e dionisíaca, ao qual Mira representaria as bacantes que assassinam Orfeu. Apesar de Mira ser uma personagem introduzida no filme, a oposição entre personagens femininas, especialmente a mulher sedutora e independente que contrastava com a personagem feminina do par de amantes, possui uma longa tradição no teatro italiano, sendo possível a influência dessa tradição na narrativa fílmica. No próximo texto iremos analisar como essas questões de gênero foram retratadas no filme Orfeu (1999) de Cacá Diegues.

  • Luana Treska

Referências:

Orfeu Negro. Direção de Marcel Camus. Produção de Sasha Gordine. Roteiro: Marcel Camus, Jacques Viot. [S.l.]: Dispat Films, Gemma Cinematografica, Tupan Filmes, 1959. (100 min.). 

DIAS, Fabiana Quintana. Orfeu: do mito à realidade brasileira uma análise da trilha sonora dos filmes “Orfeu Negro” (1959) e “Orfeu” (1999) baseados na peça “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes. 2011. 216 f. Tese (Doutorado) – Curso de Multimeios, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2011.

KIERA; ESMÉ. Women of Commedia dell’arte. 2017. Disponível em: https://myrnawyattselkirk.wordpress.com/2017/02/13/women-of-commedia-dellarte/. Acesso em: 08 set. 2025.

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