Continuando as análises da recepção fílmica brasileira do mito de Orfeu, no texto de hoje abordaremos a figura de Eurídice no filme Orfeu, de Cacá Diegues. Lançado quarenta anos depois de Orfeu Negro, primeira adaptação da peça de Vinícius de Moraes para o cinema, Orfeu traz a peça para o contexto do morro carioca dos anos 1990. Além disso, o filme de Diegues se propõe a apresentar a história a partir de uma perspectiva mais realista, embora se mantenha num lugar ambíguo entre mito e realismo, amor puro e carnal, omissão e afirmação da questão racial (Ferreira, 2018, p. 86).
Os filmes, por se basearem na mesma peça, apresentam semelhanças e continuidades entre si, como a oposição estabelecida entre Mira (Isabel Fillardis) e Eurídice (Patrícia França). Ainda que no filme de 1999 Eurídice, agora interpretada por uma mulher de pele mais clara, não seja caracterizada como tão ingênua, esse traço é substituído por seu idealismo, encarnando ainda o ideal de jovem pura e recatada. Em contraposição, “Mira aparece nua em algumas cenas, caracterizada com um figurino composto por roupas curtas, transparentes e sensuais; e possui um temperamento forte e provocativo, elementos que a enquadram no estereótipo da ‘mulata’” (Ferreira, 2021, p.10).

Patrícia França como Eurídice.

Isabel Fillardis como Mira.
Sobre a representação das duas personagens, Ferreira (2017, 2021) destaca como elas se encaixam na tendência maior do cinema nacional de idealizar as mulheres brancas ou que se aproximam de um ideal estético branco, ao mesmo tempo que esse ideal da branquitude relega as mulheres negras a papéis estereotipados, além de elas terem sido historicamente associadas a relações fortuitas e práticas sexuais ilegítimas. Tal associação se faz presente na relação de Mira com Orfeu, que parece não ter interesse em Mira além do físico, ao passo que o músico rapidamente se apaixona por Eurídice.
Sobre a representação de Eurídice no filme de Diegues, Silva e Capanema (2019) chamam a atenção para o fato de os moradores do morro a chamarem de “índia”; citando Lucia Nagib, as autoras então apontam como essa versão da personagem encarna o ideal de mestiçagem das três raças (negra, indígena e portuguesa) que estariam na base da formação brasileira. Assim, a escolha por uma atriz de pele mais clara para interpretar Eurídice no filme de 1999 não é sem consequências para a interpretação do filme e para a forma como as personagens e relações são compreendidas. No caso da oposição entre Eurídice e Mira, a escolha de atrizes reflete e reforça o ideal de branquitude que permeia as produções audiovisuais brasileiras.
Por fim, ainda dentro de uma análise de gênero, é interessante notar como o filme de Diegues aprofunda as rivalidades femininas. Ainda que no filme de 1959 houvesse uma rivalidade entre Eurídice e Mira, havia também um exemplo de amizade feminina na relação entre a primeira e Serafina, sua prima que a recebe quando chega ao Rio de Janeiro. No filme de 1999, porém, Serafina é substituída por Carmen, tia de Eurídice que não sabia de sua chegada à cidade. Carmen é uma das muitas ex-namoradas de Orfeu e parece ainda ter algum sentimento por ele, o que gera atritos entre ela e a sobrinha, quando esta começa a se envolver com o músico. Até mesmo Dona Conceição, mãe do protagonista, que recebe bem Eurídice em sua chegada, se volta contra ela ao final do filme, culpando-a pelas tragédias e desaparecimento do filho.
Eurídice, então, é isolada das outras personagens femininas do filme, sendo até mesmo colocada em relações de rivalidade e oposição com Carmem e Mira, ex-namoradas de Orfeu que, junto a um grupo de mulheres não identificadas que aparecem em uma das últimas cenas, parecem ocupar o papel das bacantes que assassinaram Orfeu em uma das versões mais conhecidas do mito. O filme de Diegues, portanto, apesar de tentar apresentar uma versão mais autônoma de Eurídice, reproduz ainda estereótipos de gênero e raça enraizados na tradição audiovisual brasileira.

Orfeu com o corpo de Eurídice nos braços, cercado por um grupo de mulheres não identificadas.

Mira (à direita), após matar Orfeu com o ferro que Carmen (à esquerda) lhe entregou.
- Camila Iwahata
Referências:
ORFEU. Direção: Carlos Diegues. Rio de Janeiro: Rio Vermelho, 1999. 1 filme (110 min), sonoro, color., 35 mm.
CAPANEMA, Letícia X.L; SILVA, Isabela F. Representação e raça em Orfeu: mito e realismo no cinema negro brasileiro. In: Catálogo da 15ª Mostra Internacional de Cinema Negro. Org.: Celso Luiz Prudente. SESC/SP, São Paulo, agosto 2019, pp 107-126.
FERREIRA, Ceiça. Branquitude e regimes de visibilidade no cinema brasileiro: uma análise do filme Orfeu (1999). Comunicação Midiática, Bauru, v. 13, n. 1, p. 78-93, 2018.
FERREIRA, Ceiça. Sob o verniz da mestiçagem: raça e gênero em três filmes brasileiros. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 28, p. 1-18, 2021.




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