Orfeu vai ao Terreiro

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Como estivemos vendo ao longo das últimas publicações, o mito de Orfeu e sua recepção nas adaptações cinematográficos do Orfeu Negro trazem muitas questões interessantes para quem assiste ao filme. E eis uma que nos deixou com muita curiosidade: como as duas versões trabalham com as questões das religiões de matriz africana nessa relação que pretende criar com o mundo antigo?

Primeiro, para aqueles que não são tão familiarizados no tema, gostaria de trazer uma breve apresentação das religiões de matriz africana. No Brasil, existe uma variedade enorme de vertentes religiosas enquadradas nesse grupo, desde as mais famosas, como o candomblé e a umbanda, até nomes menos conhecidos, como o jarê, o terecô e o xangô de Pernambuco. De uma maneira bem geral, são cosmovisões centradas em uma ligação espiritual com os orixás, divindades e/ou espíritos (dependendo da interpretação religiosa) vindos de África. Na umbanda, mesmo com sua grande variedade de linhas, existem também as entidades, espíritos desencarnados que trabalham em falanges de caboclos, erês, exus, entre outros. Segundo censo do IBGE em 2022, houve um aumento de 0,7% no número de adeptos a essas religiões, chegando à cifra de 1% da população brasileira (IBGE, 2022). 

Assim, tendo em vista a complexidade dessa questão, para estudar como ela é abordada pelo filme traremos aqui dois textos para explicar um pouco sobre a relação entre a umbanda e o candomblé com o Orfeu Negro. No post de hoje, vamos nos ater principalmente a uma discussão bibliográfica sobre essa questão, e, na próxima semana, traremos alguns exemplos presentes no filme. 

Em relação ao filme de Marcel Camus (1959), é imprescindível marcar que a religiosidade afro-brasileira é retratada de uma maneira bem generalista, chegando ao ponto de ser impossível distinguir se o terreiro gravado é de umbanda ou candomblé.

Ao lado, Orfeu visita o “terreiro de macumba” em Orfeu Negro (1959).

Em sua filmografia, se apresenta como um “terreiro de macumba”, que, além de representar a descida de Orfeu ao inferno, alimenta também o interesse documentarista de europeus deste momento sobre as práticas religiosas afro-brasileiras (GOMES, 2021). Por isso, segundo a discussão proposta por Flechet (2009), Cruz (2013) e Gomes (2021), expressa o interesse de uma intelectualidade francesa sobre esses ritos que marcavam uma dita “primitividade afro-brasileira”, em seus pontos cantados e nos transes de seus participantes. Desse modo, Cruz (2013) resume bem a condição de documentação da religiosidade como sendo uma “macumba para turista”: antes de se preocupar com um documentário etnográfico estrito, mescla muitos elementos para satisfazer o olhar dos espectadores de fora do país. 

Tais discussões, no entanto, parecem ser menos pertinentes quando vemos o filme de 1999, dirigido por Cacá Diegues. Nele, o candomblé aparece com uma força maior, falado entre os nomes dos orixás e revelado entre os jogos de búzios. Ao mesmo tempo, a presença do sincretismo religioso da umbanda, na mistura entre orixás e santos católicos, aparece em esquemas visuais que caracterizam seus personagens e guiam o desenvolvimento da narrativa. Porém, não é algo tão difuso e misturado quanto no primeiro filme. Isso favorece o entendimento da contraposição entre as religiões de matriz africana e o protestantismo cristão que fervilha a partir da relação entre mãe e pai de Orfeu – uma alegoria da sintomática expansão da fé evangélica no Brasil nessa transição entre o século XX e XXI. 

Sendo assim, enquanto o primeiro filme captura imagens de cultos afro-brasileiros desde uma perspectiva própria de seu interesse internacionalista, estrangeiro e generalista de 1959, a segunda produção tenta satisfazer e dar conta de questões sociais e religiosas pertinentes aos próprios brasileiros de 1999. Entre eles, macumba, atabaque, pontos, búzios, incorporações, orixás e entidades assumem papéis e cenários para se relacionar com o mito antigo de Orfeu e sua épica descida ao mundo dos mortos – como continuaremos a vislumbrar na próxima postagem.

Até lá!

  • Heloisa Motelewski

Referências

CRUZ, Claudio Celso Alano. O bonde de Orfeu: considerações sobre um enguiço. Revista da Anpoll, n. 35, p. 309-339, jul./dez. 2013.

FLÉCHET, Anais. Um mito exótico? A recepção crítica de Orfeu Negro de Marcel Camus (1959-2008). Significação, v. 36, n. 32, p. 43-62, jul./dez. 2009.

GOMES, Edmilson Luís Santos. Fragmentos da Diáspora Africana em duas narrativas fílmicas: Orfeu Negro (1959) e Little Senegal (2001). In: GONÇALVES, Maria Célia da Silva; JESUS, Bruna Guszman (Org.). Educação Contemporânea – Volume 18: História. Belo Horizonte: Poisson, 2021. 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Religiões: resultados preliminares da amostra. Censo 2022. 

OLIVEIRA, Maria Luisa Pereira. Quais são as religiões de matriz africana? 23 jul. 2022. Disponível em: https://www.politize.com.br/religioes-de-matriz-africana/#quais-sao-as-religioes-de-matriz-africana. 

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