Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!
O texto de hoje é uma continuação da postagem da semana passada. Como vimos, as adaptações de Orfeu Negro às telas de cinema transitam entre representações de umbanda e candomblé, apresentando práticas tanto de um “terreiro de macumba” (em sua versão de 1959) quanto de linhas específicas de tradições de matriz africana e afro-brasileira. Esse contraste de abordagens se dá na medida em que o generalismo do primeiro filme ansiava atender o olhar estrangeiro sobre as religiosidades brasileiras, enquanto a segunda produção já aparenta uma maior preocupação com a recepção por parte de um público ambientando no Brasil.
Porém, a pergunta: como e onde vemos essas representações nos dois filmes?
Em relação à cinematografia de Marcel Camus, essa figuração aparece quando Orfeu, em busca de Eurídice, encontra e adentra o “terreiro de macumba”. Primeiro que ao entrar, o cão, chamado Cérbero, ladra em direção ao personagem: o animal, algumas vezes associado a Ogum e/ou a Exu (orixá este que cuida das porteiras e encruzilhadas), marca a entrada do protagonista no “mundo dos mortos” – o terreiro é o espaço onde as almas daqueles que já se foram podem ser contatadas.
Ao longo dessa cena, escutamos ao fundo o entoar de um dos pontos dedicados à falange das entidades de Ogum Beira-Mar. Ele é muitas vezes representado visualmente como um guerreiro romano, sendo vinculado, no sincretismo, a São Jorge. Essa ligação de Orfeu com Ogum Beira-Mar me trouxe uma curiosidade e um questionamento muito constante: qual a ligação entre os dois? Como esse falangeiro de Ogum, atuante nas praias, se vincula a Orfeu?
Em nossas discussões, concluímos que esse vínculo muito possivelmente se constrói a partir de uma conexão entre o mito de Orfeu e sua presença entre os Argonautas. Estes foram os acompanhantes marinheiros de Jasão, o que talvez explicasse essa filiação entre Orfeu da Conceição e Seu Beira-Mar.

Além disso, é interessante notar como a morte persegue Eurídice sob o formato de um homem trajado de caveira. Visualmente, fui remetida à aparição de Exu Caveira, uma entidade que trabalha diretamente com a morte, reinando nos cemitérios da Umbanda e da Quimbanda.
Ao lado, cena em que “a Morte” persegue Eurídice no Carnaval.
Na obra mais recente, Orfeu da Conceição segue sendo associado a um imaginário de Ogum. Considerado o Orixá dos rappers, Ogum / São Jorge simboliza as lutas cotidianas de pessoas oprimidas e marginalizadas por justiça.
Como a encarnação da música, nada mais interessante que essa associação se dê por meio de Jorge da Capadócia, dos Racionais MC’s.
Ao mesmo tempo, vemos como os outros dois personagens protagonistas, Eurídice e Lucinho, também são associados a algumas entidades. A mocinha, pela contraposição de quadros entre a atriz e uma imagem de Santa Bárbara, parece nos ser apresentada como filha de Iansã / Oyá, mostrando a força de seu caráter e a sua firmeza na luta por aquilo que acredita ser justo.
Afinal, Orixá que comanda os ventos e tempestades, ela é também o símbolo feminino da guerra pela justiça.
Lucinho, por sua vez, parece estar associado a Oxóssi. Quando entramos no refúgio do traficante, surge uma imagem de devoção de um caboclo, imagem muitas vezes associada ao Orixá arqueiro. E, assim como seu “pai de cabeça”, Lucinho é hábil na guerra: Oxóssi é o guerreiro de uma flecha só, e seu filho é atirador de uma bala só.
Neste filme, a mãe de Orfeu é claramente adepta a uma religião de matriz africana, muito provavelmente o Candomblé. Ela tira búzios e confronta seu marido, convertido a uma igreja evangélica presente no morro.

E, no final da trama, ela pede a salvação de seu filho a Ogum, orixá guerreiro. Coincidência (ou não), o protagonista morre nas mãos de Mira com um objeto pontiagudo semelhante a uma lança – a arma usada por Ogum.
Ao lado, a lança é oferecida a Mira.
É a força guerreira deste Orixá que rege a cabeça de Orfeu da Conceição e mostra seu caminho para persistir na busca de sua amada. Sua falange de Beira-Mar, cujos pontos são cantados pelo mesmo Orfeu em 1959, permite com que ele fale, por uma última vez, com Eurídice. Em 1999, sua lança, nas mãos de Mira, o poupa de seu sofrimento e permite que, talvez, se reencontre com ela no mundo dos mortos. Orfeu, filho de Ogum, guiado por Ogum Beira-Mar, recebe na sua voz a força de sua energia e em suas ações a força de sua luta.
Por isso, o mito de Orfeu me faz saudar: salve a força de Ogum! Salve a força da falange de Seu Beira-Mar! Ogunhê, meu pai!
- Heloisa Motelewski




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