Orfeu: voz & corpo

Para matar Orfeu não basta a Morte.
Tudo morre que nasce e que viveu
Só não morre no mundo a voz de Orfeu.

Moraes, 1956

Ao mês de setembro de 1956, o Theatro Municipal recebe ao palco: volume, calor, tensão, operação de ruídos. Para o público: experiência, diriam, com pequenas doses de desconforto da cadeira, dor nas traseiras: corporeidade. “Vale a pena? eu peno amanhã pela manhã”,”vale, a pena de Moraes pairou sobre novasvelhas novidades velhas”. No ambiente, ambiência, eco eco eco, rreverberaçãoo. Tudo treme de ressignificar. Corpos outros ocupando outros olhos; olhos, vidrados. Não nas telas de cinema, isso veio depois. Holofotes, reflexo, pele, suor. Céu limpo lá fora, o ameno clima de primavera do Rio da boemia – típicas noites cariocas -, os mares de morros envolvendo o que ali se deu. O que ali se deu? ninguém sabe, todo mundo sabe, foi de terça à domingo que se deu, oras. A impossibilidade da repetição. Sucesso, teatro lotado, o jovem Carlos Diegues na plateia sonhando películas, dores de cabeça futuras ainda na França. “Orfeu é negro!”, “Orphée est noir!“, nota a plateia e franceses. “A peça promete que encanta”, prometeu um amigo ao outro. “Dizem que o tal Haroldo Costa, tem O fogo”, continuou prometendo. Encanta. Sim, sim, encanta. Nos cantos, cenários de Niemayer. No centro dos sonhos, bossa nova de Tom Jobim ecoando brasilidade dos estúdios de Odeon do Rio (estúdio em que foi gravado o LP Orfeu da Conceição, com a trilha-sonora da peça, lançado também em 1956) à Paris e Milão. Mas não tem Odeão em Milão? Tem também. Mas chega de jogar conversa fora. Vamos nos ater aos mitos!

Vinicius de Moraes transcria o mito de Orfeu com voz, música & performance para a peça Orfeu da Conceição. Quer algo mais órfico do que olhar para trás, dar voz e corpo e um violão para Orfeu encanar outra dúvida, lastimar outra perda? Mas aí vem a questão: o que se perde na recriação do mito, o que se ganha com a passagem ao audiovisual, com a passagem transcorpotemporal ao Brasil, em matéria de recepção? Dúvidas se abrem ao falar da peça. A peça, já foi apresentada aqui no blog em outro texto, intitulado “Eurídice brasileira”, das autoras Camila Iwahata e Luana Treska. Também, o mito “per si” já foi explorado tanto nas cerâmicas gregas, quanto nos mosaicos, quanto nos poetas antigos, pelos outros autores dessa sequência de textos que versam sobre o mito de Orfeu. Nos resta, portanto, lidar com o resto: tudo aquilo que excede. O excesso do significante que não cabe no corpo da palavra, excesso do som impossível ao texto. O excesso de corpo no palco que ressignifica o teatro, o excesso de um mito que cria outro, e depois outro, depois outro que compõe, juntos, a sinfonia mágica e real, impossivelmente real, da recepção.

Assim, as aberturas possíveis, que aqui apenas sobrevoei, dentro da chave da performance, serão trabalhadas no decorrer desses próximos três textos. Vamos juntos também nos abrindo a repensar o efeito do corpo e da voz para a recepção, tanto in loco, quanto como chave metodológica, campo de pesquisa. Para isso, nossa perspectiva de análise para pensar performance, tradução e recepção, corpo e voz está ancorada nos livros performance, recepção e leitura, de Paul Zumthor, e Algo infiel corpo performance tradução de Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves.

  • Fábio Vinicyus Gessinger
  • Renata Cristina Silva de Oliveira

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