Outras formas de representar Orfeu

 Orfeu surge na Grécia, segue sendo cantado em Roma, em Ovídio ele canta outros mitos. Sua figura passa pelas telas; sejam elas de Delacroix ou as dos cinemas, sua lira é ouvida na música clássica e na popular. Mas como diz o ditado, quem conta um conto sempre acrescenta um ponto. E de ponto em ponto Orfeu é uma constelação, e como os astros, que estão sempre a nascer, essa constelação não deixa de crescer. Então como podemos hoje contar Orfeu?

Como fazer uma performance crítica? Como recontar um mito? No livro Algo Infiel: Corpo, performance, tradução, de Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves, podemos vislumbrar algumas respostas para essas questões. No texto “O demônio da tradução”, os autores evidenciam o papel crítico presente no gesto da performance e da tradução:

[…] Tal como o texto de um autor não é um arquitexto puro, mas um acontecimento, seja na língua que for. Para que esse acontecimento aconteça, faz-se necessário o intérprete/tradutor, e ele, quando opera uma leitura significante da obra, acaba por gerar um processo crítico que ressignifica essa mesma obra para seus novos receptores: a leitura crítica altera também o passado da obra. Assim, o processo interpretativo é como uma tradução, existe quando apaga, ou finge apagar o original, para instaurar no seu lugar uma nova obra, que é, por sua vez, uma leitura crítica do original (Flores, Gonçalves. 2017. p.163)

Esse processo fica mais claro quando os autores analisam o caso de Gil Scott-Heron e sua performance da música Me and the Devil, canção original de Robert Johnson. Eles demonstram como o músico ressignifica a obra dentro de seu contexto biográfico: ele retoma o blues mesclando-o com o hip-hop, além de inserir questões raciais e contemporâneas do cenário norte-americano por meio da performance. Esse processo crítico também aparece na alteração que Gil Scott-Heron faz em um dos versos da letra original de Johnson, substituindo “And I’m goin’ to beat my woman / ’till I get satisfied” por “And I’m goin’ to see my woman / ’till I get satisfied”. Assim, a figura do homem negro, que em Johnson estava associada ao demoníaco e à violência, em Heron passa por um processo crítico de positivação, no qual a violência interna já não interessa.

Os autores ainda propõem uma tradução da mesma música no contexto social brasileiro, mas questionam a ética envolvida nesse processo de tradução: 

“A traducão, no entanto, entra imediatamente num problema de corpos e da ética de suas relações: que direito pode se dar um não-negro brasileiro, de classe média, bem escolarizado, professor universitário, de performar em traduçáo a voz de dois negros norte-americanos, de origem pobre e vivências absolutamente diferentes?” (Flores, Gonçalves. 2017. p.169-170)

A resposta encontrada por eles nos ajuda a entender como talvez cantar um Orfeu negro sem cair nos mesmos erros de Vinicius de Moraes, em Orfeu da Conceição, ou de Marcel Camus, em Orfeu Negro, obras nas quais a realidade dos negros brasileiros acaba reduzida a uma exotização fetichista. Gontijo e Gonçalves demonstram a possibilidade de uma tradução crítica cujo objetivo não é “encontrar um outro no estrangeiro, mas apontar, acenar para o que seria um outro em nós”. Assim, ao traduzir a música com traços da cultura oral — correndo o risco de uma representação enviesada — eles buscam, na verdade, “recusar o modelo tradicional de escrita como portador de voz”. Eles enfatizam:

Mais uma vez, seria possível insistir: o sonho desta tradução é cruzar o que, nos corpos, parece fronteira intransponível (o intraduzível dos corpos?), porque no fundo, e assim agradecemos, não existe um corpo puro. Ao traduzir Johnson ao português, num livro sobre poesia, ousaríamos sonhar uma tradição da poesia brasileira que visse na poesia negra (escrita, cançáo, hip hop, etc. também um centro de nossa poesia. (Flores, Gonçalves. 2017. p. 171.)

O tipo de performance crítica proposto pelos autores aparece não apenas na tradução de Me and the Devil, mas também em outras experiências performáticas das quais eles participam, como é o caso da banda Pecora Loca, que retoma poesias gregas e romanas da Antiguidade no contexto contemporâneo, mesclando-as com elementos da música popular, do rock e de outros estilos musicais. Assim, torna-se possível imaginar outras formas de cantar Orfeu no presente, afinal, o mundo antigo não deixa de se fazer presente.

  • Fábio Vinicyus Gessinger
  • Renata C. Silva de Oliveira

Referência:

FLORES, Guilherme Gontijo; GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. Algo infiel corpo performance tradução. Fotografias de Rafael Dabul. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie, São Paulo: n-1 edições, 2017.

Banda Pecora Loca: https://www.youtube.com/c/PecoraLoca

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