Olá pessoal, esperamos que estejam bem!
No texto de hoje, analisaremos de que modo as adaptações brasileiras do mito de Orfeu, no teatro e no cinema, incorporam e trazem consigo questões sociorraciais fundamentais para a compreensão da própria formação da identidade nacional.
No Brasil da década de 1950, as relações internacionais se mantinham, de certa forma, em tom de otimismo após a vitória dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Na literatura, nas mídias, na arte e no cinema, um grande número de produções buscava mostrar a “realidade” nacional para o mundo e afirmar a identidade cultural brasileira. O problema é que, muitas vezes, isso era feito “pra gringo ver”, literalmente! Assim, determinadas obras, ainda que realizadas no Brasil, estavam repletas de estereótipos e generalizações sobre as culturas locais, visto que objetivavam alcançar um grande público nacional e internacional. Assim, após a consolidação dos estudos sociológicos no Brasil nos anos de 1930 e 1940, foi a vez das novas tecnologias, como o cinema e o rádio, serem utilizadas para mostrar ao mundo a cara e o espírito brasileiros nos anos de 1950.
Contribuindo com esse movimento, o escritor fluminense Vinicius de Moraes redigiu a peça Orfeu da Conceição (1954) como forma de criar uma narrativa propriamente brasileira a partir da estrutura do mito da antiguidade greco-romana. A inspiração clássica, para Vinicius, não era apenas coincidência ou simples preferência estética, mas dizia respeito à própria visão do autor sobre o negro brasileiro. Acerca do tema, declarou: “como se o negro, o negro carioca no caso, fosse um grego em ganga – um grego ainda despojado de cultura e do culto apolíneo à beleza, mas não menos marcado pelo sentimento dionisíaco da vida.” (Moraes, 2013, p. 7). Nessa passagem, nos deparamos com uma apropriação preconceituosa de conceitos da cultura antiga para se referir à população racializada brasileira. Vinicius marca seu panorama ao entender o negro como carente de cultura e do “culto apolíneo”, relativo à razão, à ordem, à harmonia etc.; por outro lado, tomado pelo “sentimento dionisíaco”, em referência aos ritos dedicados ao deus Dionísio, que envolviam danças, músicas e o consumo de substâncias psicoativas. Assim, deixava claro que sua visão sobre o negro era de ingenuidade, inocência e simploriedade.
Além disso, a narrativa se encaixa em um modelo de padrão cultural ocidentalizado, como aponta Marina de Oliveira (2012), que ressalta a fala sofisticada dos personagens, o casamento nos moldes cristãos, a ausência das raízes de origem de Orfeu, etc. “Ao privilegiar a cultura ocidental em detrimento da africana, o compositor estaria seguindo uma tendência de sua geração, em que o pensamento oficial, sob a égide do Estado Novo, era ‘civilizar’ a cultura popular brasileira. A construção de um herói negro europeizado, nesse sentido, vincula-se, sem sombra de dúvida, a essa ideologia de embranquecimento das manifestações artísticas do País.” (Oliveira, 2012, p. 148).
Adiciona-se a isso o uso de termos com conotações discriminatórias quando o autor destaca o valor negativo de determinadas proposições “negras”, como é o caso de “negra inveja”, “negro mundo” ou “negro mel do crime”. No drama de Orfeu e Eurídice, o personagem que conduz o casal principal ao seu fim trágico chama-se Dama Negra e representa um espírito ou entidade ligada à morte. Na peça, a fim de afastar sua presença, Orfeu toca um ritmo de macumba com seu violão, que é descrito como “macabro e demoníaco”. Como já visto em textos anteriores aqui no blog, a questão das religiões de matriz africana, tanto na peça como no filme de Marcel Camus, é bastante estereotipada.
E, por falar no filme de Camus, Orfeu do Carnaval (1959), encontramos em sua tela praticamente as mesmas problemáticas que rodeiam a peça. Embora conte com um elenco em sua maioria composto por sujeitos negros, o discurso produzido pelo enredo suscita alguns pontos a serem questionados. Permeado por uma ideologia civilizatória e de embranquecimento, o que se encontra no filme é a ausência das condições socio-históricas do negro brasileiro. Assim, tudo que é da cultura preta torna-se genérico e, portanto, esvaziado. As precariedades da vida no morro e a pobreza são naturalizadas e amenizadas pelo suposto sentimento de alegria que dominaria o negro por meio da dança e da música. A imagem é de uma população ingênua. Nas palavras de Carvalho (2006), “na procura do ‘homem brasileiro’ e da ‘realidade brasileira’ que estes artistas empreenderam, foi o negro, metaforizado na figura do povo, favelado, camponês, analfabeto, migrante, operário etc., a chave da representação desse novo país. Ao mesmo tempo, o negro escolhido pelo Cinema Novo foi desracializado.” (p. 24). O impacto disso tudo se verifica no depoimento do historiador norte-americano Henry Louis Gates Jr.: “A julgar pelo filme, o Brasil era mulato. Para nós, o Orfeu do Carnaval parecia um equivalente cinematográfico da teoria de Gilberto Freyre sobre o Brasil como uma democracia racial. E tudo aquilo me fez desejar visitar o país (…)” (Ferreira, 2021, p. 4, apud Gates Jr., 2009, p. 32)

Assim, temos uma recepção que não é problemática por seu conteúdo antigo, mas sim pelas escolhas feitas no empreendimento e uso desse passado na contemporaneidade. Além disso, o Orfeu brasileiro ressalta as várias nuances envolvidas nos processos de adaptação e instrumentalização da antiguidade em novas épocas, a partir da intersecção entre os discursos antigos e modernos. Do mesmo modo, revela a potência ideológica das produções culturais que permeavam as elites artísticas brasileiras em meados do século XX.
- Guilherme Bohn dos Santos
BIBLIOGRAFIA
CARVALHO, Noel S. O cinema em negro e branco (prefácio). In: SOUZA, Edileuza P. de (org.). Negritude, cinema e educação: caminhos para a implementação da Lei 10.639/2003. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006. v. 1, p. 17-30.
FERREIRA, Ceiça. Sob o verniz da mestiçagem: raça e gênero em três filmes brasileiros. Revista Famecos (Online), v. 28, p. 1-18, 2021.
MORAES, Vinícius. Orfeu da Conceição. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
OLIVEIRA, Marina de. A favela em “Orfeu da Conceição”: poetização e eurocentrismo. Navegações: Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa, v. 5, p. 143-148, 2012.




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