Olá pessoal!
Esperamos que estejam bem!
Hoje daremos continuidade na discussão sobre a formação de uma identidade nacional brasileira, a partir de outros dois elementos presentes na peça e no filme sobre Orfeu: o samba e o carnaval. Provavelmente você já se deparou com a frase de que o Brasil é o “país do carnaval e do samba”. Mas como chegou-se nesse consenso e como isso é percebido no filme Orfeu Negro, de Marcel Camus?
Inicialmente, com a peça Orfeu da Conceição, como discutido no texto da semana passada, Vinicius de Moraes procurou trazer o protagonismo e, de certa forma, homenagear o negro em seu enredo, reconhecendo-o como tendo um papel central na formação cultural brasileira, já que era o porta-voz do samba e, consequentemente, do carnaval. Por isso, Rogério de Almeida (2020) afirma que a ideia de Moraes agia em consonância com o projeto modernista brasileiro. Isto é, criar uma identidade nacional menos idealizada do que a propagada pelo romantismo, mas que fosse algo que representasse o povo brasileiro, além de que fosse criado no Brasil.
A partir do governo de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo (1930-1945), surge a necessidade de reforçar a unidade nacional, por meio de elementos que estivessem conectados com os brasileiros e transmitisse a autenticidade nacional para o mundo. Nessa época, utilizando o rádio como principal meio de comunicação, difundiu-se, cada vez mais, o samba como um ritmo propriamente brasileiro. Figuras como a de Carmen Miranda e do Zé Carioca ajudam a consolidar, também, os estereótipos da baiana e do malandro no exterior, somando-se ao carnaval e atraindo cada vez mais turistas interessados em ver a atmosfera de alegria e liberdade durante a festa popular.
Por outro lado, o samba carioca também auxiliou na propagação de discursos racistas, como o da existência de uma democracia racial no Brasil. Como grande parte da população negra não tinha acesso à escolaridade, passaram a se dedicar a atividades que não dependessem disso, como, por exemplo, a música e o futebol. Então, alguns intelectuais do período começaram a considerar o negro como o elemento criativo da miscigenação brasileira, sendo, por isso, responsável pela formação da cultura nacional. Nessa ideia, o samba seria um elemento de superação do racismo, como colocado por Rafael Rezende (2017). Além disso, contribuindo com o discurso do samba como unificador da nação, dentro da visão modernista incorpora-se o sentido de que o samba e, especificamente, o carnaval, eram movimentos “antropofágicos” de resistência do povo brasileiro à imposição da cultura estrangeira. Logo, o samba passa a ser cada vez mais respeitado e veiculado como o gênero musical propriamente brasileiro.
Já a cultura do carnaval, se inicia com o entrudo, ainda durante a colonização portuguesa, passando por variadas modificações até, principalmente, a década de 1920, quando começa a ganhar um maior destaque. O carnaval que é estabelecido nesse período traz contribuições populares, mas com certos elementos de controle por parte das elites, para se evitar os excessos. Assim, o carnaval passa a ser a síntese perfeita da essência brasileira, uma vez que absorve algumas referências internacionais e as incorpora às tradições culturais e folclóricas de regiões do Brasil. Com isso, assume-se uma festa popular, que traria, em sua essência, o valor e o protagonismo da cultura negra.
No filme de Camus, os dois elementos são fundamentais. O Orfeu do diretor francês traz consigo o samba, o dom para a música, e tem como cenário o carnaval carioca. Aqui, o carnaval ganha seu protagonismo não só pela festividade em si, mas, também, pelo momento dramático que o acompanha na história. Ainda que a adaptação tenha como intenção transpor o mito grego para o morro do Rio de Janeiro dando protagonismo ao negro e sua cultura, ele o faz de maneira estereotipada, seguindo as características propagadas externamente pelo governo e intelectuais brasileiros, fazendo apenas com que esses ideais de brasilidade sejam reforçados e disseminados internacionalmente. Ao mesmo tempo, isso demonstra o êxito do projeto identitário nacional aos olhos do estrangeiro, que passou a ver o Brasil como o país do carnaval e do samba.

- Isabela de Oliveira Fedorovicz
Referências:
ALMEIDA, Rogério de. Orfeu no carnaval: ensaio sobre as adaptações da peça Orfeu da Conceição. Extraprensa, São Paulo, v. 14, n. 1, pp. 353-370, 2020.
REZENDE, Rafael Otávio Dias. O negro nas narrativas das escolas de samba cariocas: Um estudo de Kizomba (1988), Orfeu (1998), Candaces (2007) e Angola (2012). Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora. 200 f. 2017.




Deixe um comentário