É possível afirmar que as manifestações artísticas e culturais de uma determinada sociedade refletem muito os ideais compartilhados por ela. Tendo isso em vista, é interessante pensar as relações de poder e gênero dentro do campo das artes visuais, visto que a figura da mulher aparece de acordo com idealizações de cada período histórico. Em especial, na figura da deusa Vênus essas idealizações ficam bastante evidentes, até mesmo na obra de Picasso. Assim, para melhor explorar o tema de Vênus em Picasso, o texto será dividido em duas partes. Esse texto, a primeira parte, será dedicado à análise histórica da figura de Vênus na arte, enquanto a segunda parte, o texto da semana que vem, discutirá as questões de gênero na arte, principalmente de Picasso, utilizando, para tal, a figura mitológica da deusa do amor.
A partir do ano de 1917, Picasso utiliza a cultura greco-latina da Antiguidade como inspiração para novos temas de suas obras, não apenas como um retorno à ordem, mas como uma reinterpretação do passado artístico. Essa influência clássica se deu, principalmente, pelo uso dos mitos, tanto das histórias quanto dos personagens, em litografias, gravuras ou desenhos. Como parte dessa reinterpretação mitológica, Picasso reproduz obras de outros grandes artistas, das quais a protagonista é a mulher, inclusive Vênus (JULIÁN, 1992).
De modo geral, a deusa Vênus está associada ao amor, beleza e sensualidade, podendo ser considerada o ideal de beleza feminino, a perfeição plena. Dentro da mitologia, a versão mais aceita e difundida é a de que a deusa foi gerada pelas espumas do mar da ilha de Chipre, na Grécia, e nasceu em uma concha de madrepérola. Em sua forma grega tem o nome de Afrodite e em sua versão latina, Vênus. Justamente por estar ligada à beleza, foi uma figura bastante retratada nas pinturas ao longo dos séculos. A historiadora da arte Inmaculada Julián (1992) aborda uma diferenciação da deusa em dois tipos: Naturalis e Celestialis. A Vênus Naturalis não possui uma idealização corporal. Na verdade, a Naturalis está vinculada à fertilidade e corresponderia às Vênus pré-históricas, com seus corpos “deformados”, algo muito explorado e presente em Picasso também. Já a Vênus Celestialis leva à mulher idealizada, ligada à sensualidade feminina, e que tem seu auge nas representações renascentistas.
No período do Renascimento, com o fim da moral religiosa da Idade Média, o erotismo, a sensualidade e a beleza passam a ser mais retratados por artistas, que resgatam os princípios da Antiguidade Clássica, como, por exemplo, a completa nudez das figuras femininas, sem ter necessariamente um caráter sexual. Nesse momento, Vênus é representada anatomicamente mais avançada e idealizada que as figuras anteriores. A partir daí, tem-se um retorno a Vênus Celestialis, transformando-a em um modelo de excelência espiritual, não apenas um objeto de desejo físico (JULIÁN, 1992). A consolidação desses traços de Vênus acontecerá na famosa obra de Sandro Botticelli, O Nascimento de Vênus. No entanto, as pinturas referentes à deusa do amor não se limitam ao Renascimento italiano. Muitas obras foram feitas utilizando os mesmos conceitos: uma beleza sofisticada, com um erotismo sutil, representado pela exposição de sua nudez. Uma dessas obras é a de Lucas Cranach, figura importante do renascimento alemão, que retrata Cupido reclamando com Vênus por abelhas o terem picado na tentativa de roubar-lhes o mel (fig. 01).
Posteriormente, a divindade continuou sendo representada na arte, adaptando-se com os protótipos de beleza de cada época e localidade, mas ainda, geralmente, associada a essa sensualidade. Na arte contemporânea de Picasso, o corpo de Vênus aparece fora do lugar do clássico. O artista malaguenho, na década de 1940, recriou a obra Vênus e Cupido, de Cranach, não só uma, mas quatro vezes. Nessas litografias, ele segue o modelo com certa fidelidade, porém destacou o sexo da deusa e a flecha que Cupido aponta para ela, inexistente na primeira versão (fig. 02, 03 e 04). Além disso, o corpo da divindade aparece fora do padrão clássico, desproporcional e deformado. Ou seja, Picasso não faz uma cópia fiel da obra original, mas a utiliza como material para uma nova invenção. Inclusive, no período, Picasso declarou:
O ensinamento acadêmico sobre a beleza é falso; fomos tão enganados que não conseguimos mais encontrar nem mesmo um indício de verdade. As belezas do Partenon, das Vênus, das Ninfas, dos Narcisos, são tantas quanto mentiras. A arte não pode ser a aplicação de um cânone de beleza, mas a aplicação do que o instinto e o pensamento podem conceber independentemente do cânone. (1935, apud JULIÁN, 1992).
Portanto, a mulher, a Vênus representada por Picasso é totalmente fora dos padrões de beleza do ideal clássico. Assim, ele não age como um tradutor dos cânones do mito clássico. Pelo contrário, ele usa o mito para elaborar uma nova perspectiva, dando um novo sentido para o que já existe e sendo contrário ao modelo de clássico existente. Isto é, Picasso desconstrói formas estilísticas anteriores, muitas já desgastadas, para criá-las novamente, caracterizando uma forma de seguir utilizando os clássicos, mas sem ser classicista.

figura 01

figura 02

figura 03

figura 04
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
CASTRO, M. J. M.; ALMEIDA, C. R. A Vênus e seu corpo histórico nas obras de arte. UNIÍTALO em Pesquisa, São Paulo, v.8, n.4, pp. 180-197, out/2018.
JULIÁN, I. Temas y modelos en la de Picasso. D’Art: Revista del Departamento d’Historia del’Arte, Barcelona, n. 17, 1992, pp. 205-223.
RUIZ, M. L. A. Venus en el arte. In: GONZÁLEZ, J. M. Monografías de arte: 2001-2002. Sevilla: Universidad de Sevilla, 2002.
● Isabela de Oliveira Fedorovicz




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