Por que estudar os clássicos no Brasil?

No texto anterior, procuramos dar um panorama abrangente sobre os motivos de se estudar o passado e seus usos de modo geral. Nele, concluímos que não estudamos um passado puro. Mais do que isso, percebemos também que esta é uma dimensão muito importante da forma como construímos aquilo que entendemos por nós mesmos, que valorizamos em nossas sociedades, e também uma importante forma de se colocar no mundo. Quando nos referimos ao passado clássico, esse assunto ainda ganha um outro ar de relevância porque, por muito tempo, esse período de tempo foi visto como a origem da civilização, como justificativa de poder, como lugar de admiração e até mesmo como território de disputa por origens. Os romanos estiveram pela África e pela Ásia, e muitos de seus intelectuais e líderes provinham de regiões provinciais do Império; os gregos tiveram sua filosofia e pensamento desenvolvidos na base de trocas culturais com povos dos três continentes; e o caminho que nos trouxe o conhecimento do mundo antigo também passou pelas culturas árabes e de África. No entanto, muitas vezes a antiguidade romana e grega é apresentada como puramente europeia e como fonte de origem da civilização, como representante do poder ideológico das classes dominantes etc.

A verdade é que, como todo passado, a Antiguidade Clássica foi solicitada para organizar as realidades interessadas, nos lembrando que narrativas tradicionais de poder e de identidade constantemente recorrem a esse período. Em 2025, por exemplo, Donald Trump baixava um decreto obrigando os prédios federais a utilizarem arquitetura clássica. “Make America beautiful again” associava seu governo aos impérios clássicos e ao neoclassicismo dos Estados Unidos que, no século XIX, expandia para o interior. No cinema e em jogos de videogame, esse passado é frequentemente suscitado como lembrança de tempos de imperialismo, força, masculinidade exacerbada, como se nossa admiração por ele tivesse de passar pelo reforço desses mesmos critérios conservadores. No Brasil, os clássicos apareceram de diversas maneiras: nas joias dos imperadores, na arquitetura imperial do Rio de Janeiro, nos debates históricos do IHGB quando os intelectuais procuravam construir uma identidade brasileira e até no movimento paranista, que procurava construir uma identidade paranaense baseada na mistura de intelectualidade europeia, elementos da flora e fauna locais e até em um pouco de misticismo. 

Mas enquanto todo mundo parecia procurar uma Antiguidade para chamar de sua, e entender ela como forma de se entender no panorama das nações, o passado clássico também suscitaria outros tipos de visões críticas e reflexões não conformistas. No início do século XX, Dario Veloso fundaria uma escola neopitagórica das musas, misturando misticismo e poesia com o renascimento de práticas rituais que imaginava serem clássicas. Ainda no campo da arte, muito do patrimônio clássico serviu de inspiração a poetas, escritores e teóricos, compondo enorme quantidade daquilo que foi mobilizado para nossas interpretações no Brasil e na América Latina de modo geral. Na bandeira do Estado de Minas Gerais, figura uma frase de Virgílio, libertas quae sera tamen, mostrando que a ideia de que o poeta romano criticava o estado do Império serviu de inspiração para os habitantes de Ouro Preto criticarem o Estado Português no qual viviam. No teatro, diferentes adaptações populares da tragédia Antígona apareceriam do Caribe à Argentina na criação de produtos culturais ligados aos processos de independência e construção de identidades nacionais. No Brasil, Jorge Andrade produziria uma releitura da obra de Sófocles em Pedreira das Almas (1957). De forma semelhante, Nelson Rodrigues, em 1947, trouxe ao cenário carioca o enredo da Oresteia em Senhora dos Afogados. Ainda, em 2024, a atriz Fernanda Torres comentou em entrevista ao jornal O Globo que lembrou-se da atuação de Irene Papas como Clitemnestra em Ifigênia (1977) para performar Eunice Paiva no filme Ainda Estou Aqui (2024). Embora tais exemplos se limitem ao teatro e ao cinema, eles dizem respeito a apenas uma pequena parcela da enormidade de recepções feitas na América Latina. Essa expressividade da presença clássica em territórios que antes foram colônias espanholas ou portuguesas, revela a importância das perspectivas autóctones latino-americanas no estudo do passado antigo. Efetuar esses deslocamentos demonstra que as recepções e usos do passado são também ferramentas para rejeitar e resistir a poderes dominantes, possibilitando a criação de outras formas de leituras para os documentos greco-romanos. 

Queiramos ou não, a Antiguidade não é um passado esquecido: é presente e constante em nossa cultura. Independente do caminho que ele tomou para chegar até nós, esse universo continua sendo território de disputas. Em certos momentos, os usos autoritários da antiguidade se legitimam justamente porque parecem realmente acessar um tempo originário, masculino, dominador, europeu e inquestionado. E enquanto não ressaltarmos as outras interpretações possíveis do que é Antigo, não podemos desconstruir o argumento de que somos herdeiros daquela Roma e daquela Grécia que parecem uma cópia dos nossos conservadorismos. Assim, não estudamos um passado grego e romano no Brasil apenas por curiosidade ou por desejo. Estudamos também para nos posicionarmos em um campo que, como sempre quando se trata de nossas origens ou de nossa história, procura organizar disputas, mobilizar poderes, construir identidades, determinar futuros. Muitos dos exemplos que usamos para construir esse argumento, aliás, correspondem a temas que trabalhamos ou em nossas pesquisas coletivas do Blog, ou em trabalhos individuais desenvolvidos por membros do nosso grupo. Por isso, nossos canais de comunicação funcionam também como repositórios onde nossos leitores podem procurar mais informação sobre o passado e, acreditamos, entender melhor os debates possíveis e as vias menos conhecidas de interpretação da Antiguidade. Quem sabe, desse modo, possamos construir novas antiguidades para novos presentes, mais abertos, menos coloniais, autoritários ou eurocêntricos.

Links:

Donald Trump assina decreto para tornar a arquitetura federal dos EUA ‘bonita novamente’ 

  • Alexandre Cozer, Guilherme Bohn dos Santos e Gabriela Beduschi Guadagnin

Deixe um comentário