Quando pensamos nos variados modos de Recepção dos Clássicos que são produzidos na modernidade, as peças teatrais aparecem em quantidade expressiva com múltiplas propostas e leituras. O teatro foi e continua sendo uma forma de arte que, diferente de outras como a literatura e as artes visuais, requer uma performance executada de forma síncrona diante de uma plateia. Embora muitas vezes tragédias, dramas e comédias destinadas aos palcos sejam elaboradas no papel, a encenação dos enredos não depende de sua forma escrita. Isso faz com que o teatro tenha um alcance maior e possa atingir parcelas da população não familiarizadas com a leitura, por exemplo. Além disso, durante a apresentação de uma peça de teatro, tudo acontece ao vivo, desde a performance dos atores até as reações da plateia, uma combinação de fatores que provoca uma profunda sensação de vividez.
De qualquer modo, seja pela palavra escrita ou falada, o teatro possui particularidades muito valiosas quando pensamos na potência da linguagem para as recepções da antiguidade, e é aí que reside seu “sucesso” nesse meio. Das tragédias antigas aprendemos a ser comovidos pela crueza de destinos tão fatais e catastróficos. Das comédias, levados por cenas cômicas que provocam boas gargalhadas diante de ironias e sátiras. E, o principal de tudo: independente do gênero, somos convocados a reagir e nos expressar diante daquilo que nos é apresentado. Assim, o teatro aproxima seu texto da realidade por mexer com nossas emoções, crenças e valores. E é justamente na potência crítica e mobilizadora que o universo teatral ganha seu destaque. Isso explica o porquê deste ser tão popular em territórios que foram colonizados por países europeus.
Na América-Latina, por exemplo, do México ao Cone Sul são encontradas inúmeras adaptações da Antígona e de outras tragédias como Electra que surgem após as independências nacionais. Cada uma dessas recepções nos ensina sobre um momento específico da história, dos desejos e lutas das sociedades que as produziram. Isso ocorre porque a linguagem teatral permite a adequação das narrativas para contextos específicos. Seguindo o exemplo da obra de Sófocles, na América Latina temos uma Antígona Vélez nos pampas argentinos (escrita por Leopoldo Marechal em 1951); uma Antígona Pérez na fictícia República de Molina (criada pelo porto-riquenho Luis Rafael Sánchez em 1968); e ainda uma Antígona González, que busca por seu irmão Tadeo em Tamaulipas, no México (de Sara Uribe, 2012). Nesse recorte, todas tratam de temas ligados à violência, às identidades locais e o papel das mulheres na luta contra poderes autoritários.
Assim, a Recepção dos Clássicos encontra no teatro uma ferramenta e uma fonte de inspiração para a produção de críticas realizadas no campo das linguagens que permitem novas leituras sobre o passado e, principalmente, sobre o presente à nossa volta. Seguindo nessa temática, veremos nas publicações seguintes aqui no blog mais alguns exemplos da pluralidade das formas de recepção do teatro e seus desdobramentos.
Referências:
ANDÚJAR, Rosa; NIKOLOUTSOS, Konstantinos P. (Ed.). Greeks and Romans on the Latin American Stage. London; New York: Bloomsbury Academic, 2020.
FRADINGER, Moira. Antígonas: writing from Latin America. United Kingdom: Oxford University Press, 2023.
- Guilherme Bohn dos Santos




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