Manifesto: usos do passado, desconstrução e clássicos plurais

“É preciso que o poder arcôntico, que concentra também as funções de unificação, identificação, classificação caminhe junto com o que chamaremos o poder de consignação.”

(Jacques Derrida, 1995)

O Arconte, em Atenas, era um magistrado responsável por governar áreas específicas da política. Em colégio, eles se dividiam entre aqueles que comandavam a guerra, o Estado ou as políticas legislativas. Seu nome, entretanto, deriva de um conceito grego bastante abrangente: o verbo arkhein poderia estar associado tanto à ideia de origem, quanto a formas de comando e controle. Esse jogo de palavras, que em nossa língua pode transitar entre príncipe e princípio, fez parte da consolidação de um tipo de poder que buscou – e ainda busca – organizar, classificar e dar ordem a tudo que se produz enquanto registro das atividades de uma comunidade. Derrida (1995) chamaria de Arquivo o conjunto de documentos que foram ativamente selecionados para serem mantidos e preservados conforme as diretrizes de um grupo dirigente. Nesse meio, entre as diferentes formas de inscrição adotadas, a escrita da História apresenta-se como uma das mais potentes e perigosas. Em outras palavras, quando pensamos em narrar o passado por meio do ofício do historiador, estamos lidando com arquivos e poderes. 

Não é por acaso que o exemplo do arkhein esteja ligado diretamente à Grécia Antiga. O estudo da antiguidade helênico-romana têm sido por muitos séculos utilizado como instrumento da consolidação de um tipo de História que tenta ser única e dominante. Mas será que isso é tudo? Como podemos pensar em meios de escrever o passado de forma plural e que celebre as diferenças? É pensando em uma abordagem de “clássicos múltiplos” que organizamos nossas atividades e orientamos nosso posicionamento enquanto grupo.

O que consideramos história não corresponde ao “todo” do tempo passado, seria impossível produzirmos uma análise que desse conta de relatar “tudo o que aconteceu” em determinado período ou época. Nem mesmo em nossa vida particular – que experimentamos com nossos próprios sentidos – somos capazes de lembrar e registrar cada passo que damos. Dessa forma, quando pensamos em “fazer História”, significa que buscamos interpretar o tempo a partir de escolhas que dizem respeito às nossas próprias questões. Conforme a necessidade e a justificativa dos meios, podemos explicar o passado a partir de características religiosas, econômicas, materiais, psicológicas e até numéricas. Com isso em mente, precisamos estar sempre atentos aos nossos objetivos e finalidades. O que queremos transmitir quando estudamos e divulgamos História Antiga?

A primeira constatação que organiza o estudo dos Usos do Passado, portanto, é a de que nós construímos narrativas sobre o que transcorreu a partir de nossos próprios interesses. A segunda é a de que todas essas narrativas terminam por ocupar um determinado lugar político no presente. Isso porque, toda vez que nos remetemos a eventos passados, estamos também construindo formas de falar sobre aquilo que vivemos no agora. Precisamos lembrar que todos os saberes e  virtudes gregas e romanas que conhecemos chegaram ao nosso tempo por meio de diferentes vias, construídas como resultado de lembranças e esquecimentos deliberados. Nessa esteira que a todo o momento revive o passado diante de nossos olhos, nosso papel é decidir como vamos encarar e lidar com isso tudo. 

Assim, o estudo dos usos do passado e suas recepções faz algo muito maior do que estudar o que se foi. Além de conteúdos e escritos produzidos por historiadores e intelectuais de forma “oficial”, estudamos aquilo que foi incorporado por sujeitos de diferentes classes, raças e gêneros em suas escolhas, crenças e práticas dentro de um âmbito político e cultural. Podemos dizer que os estudos de recepção, portanto, tratam de lidar com o “passado presente”, e não o “passado passado”.

Essa perspectiva implica em uma mudança de postura importante: primeiro, ela ressalta que o passado não importa somente em sua versão acadêmica. Embora os historiadores profissionais tenham maneiras mais confiáveis de construir suas narrativas sobre o que se foi, é na vida comum que o sentido do passado ganha sua principal relevância. Segundo, ela relembra que aquilo que produzimos em nossa disciplina está também inserido em contextos maiores. Esses deslocamentos nos servem também como alerta de que possuímos uma grande responsabilidade em nossas mãos. É claro que todo historiador comprometido sabe que seus trabalhos devem ter a contribuir com nossas comunidades, mas são os usos do passado e a recepção que constroem os estudos mais insistentes sobre as formas como nós viemos organizando aquilo que conhecemos como História. 

É, em grande medida, por essa perspectiva que nosso blog e nossos canais de comunicação vieram a funcionar. A vida que ganha aquilo que entendemos como passado constitui o nosso arquivo e vem, com ele, a gerir o rol de ideias que podemos reproduzir no mundo. Nesse sentido, divulgar conhecimentos produzidos na Universidade deve, se não transformar, ao menos auxiliar a aumentar as noções que detemos enquanto comunidade sobre a Antiguidade e o que mais trouxermos para nosso presente. Afinal de contas, todo mundo usa do passado quase o tempo todo: melhor conhecer mais sobre ele!

Leituras sugeridas:

BAKOGIANNI, Anastasia. O Que Há De Tão ‘clássico’ Na Recepção Dos Clássicos? Teorias, Metodologias e Perspectivas Futuras. Codex – Revista de Estudos Clássicos; Vol 4, No 1. UFRJ: Rio de Janeiro, 2016.

DERRIDA, Jacques. Mal  de  Arquivo:  uma  impressão  freudiana. Trad.  Cláudia  de  Moraes Rego. Rio de janeiro: Relume Dumará, 2001.

HARDWICK, Lorna. Reception Studies. Oxford University Press: Oxford, 2003.

HARDWICK, Lorna; GILLESPIE, Carol. (orgs.). Classics in Post-Colonial Words. Oxford: Oxford University Press, 2007.

LOWENTHAL, D. Como conhecemos o passado. Tradução de Lúcia Haddad e revisão técnica de Marina Maluf. Projeto História, São Paulo, v. 17, p. 63–201, 1998. 

MARTINDALE, Charles; THOMAS, Richard (ed.). Classics and the Uses of Reception. Malden: Blackwell Publishing, 2006.

SILVA, Glaydson José da; FUNARI, Pedro Paulo; GARRAFFONI, Renata Senna. Recepções da Antiguidade e usos do passado: estabelecimento dos campos e sua presença na realidade brasileira. REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA (ONLINE), v. 40, p. 43-66, 2020.

  • Alexandre Cozer, Guilherme Bohn dos Santos e Gabriela Beduschi Guadagnin

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